BIG JUMPS

Inês Fonseca Santos

Nascida em Lisboa em 1979, Inês Fonseca Santos é poeta e jornalista. Trabalhou em projectos como "Câmara Clara", "Sociedade das Belas Artes" e "Tradições". É autora dos livros de poesia "As Coisas" e "A Habitação de Jonas". Na sua mais recente obra, "A Palavra Perdida", homenageia o seu filho e o poeta Manuel António Pina.

#1
Entrevista realizada a 6 de Novembro de 2014

Há 20 anos o que é que te vias a fazer profissionalmente?

Há 20 anos atrás tinha...quinze. Achava que ia ser advogada.

Se a adolescente da altura te visse agora estaria satisfeita ou um pouco desiludida?

Acho que estaria surpreendida. Naquela altura estava mesmo convencida que ia ser advogada, ter imenso sucesso, aquelas carreiras completamente óbvias, em que tens um progresso contínuo, que é uma coisa que não existe hoje em dia, não é? Por isso, acho que estaria surpreendida, mas também estaria contente por ver que não vale a pena fazer muitos planos.

Fizeste o curso de Direito. Quando é que chegaste à conclusão que não querias ser advogada e querias ser outra coisa qualquer?

No primeiro ano, logo.

Logo no primeiro ano?

Talvez no primeiro dia. (risos)

E fizeste os cinco anos do curso?

Vê lá tu. Foi assim: eu entrei na faculdade e... odiei logo o primeiro dia, as praxes... Detestei a maneira como os professores lidavam connosco, aquela cerimónia toda muito construída e muito falsa.

Que é especialmente notória na Faculdade de Direito.

Sim, e depois fiz o primeiro ano e gostava relativamente de Introdução ao Estudo do Direito, que era uma cadeira de direito civil. A minha irmã, que estava a acabar o curso na altura, e o meu pai, que é advogado, disseram-me: "No segundo ano vais gostar, vais ter Teoria Geral". E, de facto, cheguei ao segundo ano e pensei, "Bem, se calhar...". Como ia tendo boas notas, ia dispensando das orais, tinha 4 meses de férias, aquilo até se tolerava. Cheguei ao terceiro ano. Fui ter com o meu pai ao escritório dele, desatei num pranto, a chorar, "Eu não quero isto, isto não é para mim". O meu pai disse-me: "Inês, já estás no terceiro ano, tens boas notas, fazes isto com alguma facilidade, acaba o curso e depois vais fazer o que queres". E acabei o curso, tive cinco anos de insónias... Foi duro. E depois segui para a Faculdade de Letras.

Ao fazeres essa mudança, já pensavas na poesia ou era algo que fazias ao lado, para alimentar a tua parte criativa?

Eu sempre gostei de poesia, comecei a ler muito miúda porque o meu avô tinha imensos livros e gostava de me ler poesia. Portanto o meu primeiro contacto com a poesia foi através dos meus avós, e do meu avô, sobretudo. Ele lia-me imenso Álvaro de Campos e Miguel Torga. E sempre gostei de ler; lembro-me quando era miúda passava muito tempo a ler nas férias grandes...As férias grandes eram eternas, não é?

Parecia que o tempo expandia.

Exactamente, até tinhas tempo para te aborrecer. A que é que eu vou brincar agora? Mas comecei logo aí a ler poesia. Depois, comecei a escrever aquelas coisas muito teen, muito adolescentes, e continuei a experimentar mais tarde, nas tais noites de insónia na faculdade. Nessa altura, escrevia sobretudo para a gaveta. Era a única maneira de gerir a insónia e sentir alguma esperança, sentir que ia chegar ao fim daquilo... Porque estava a alimentar uma outra coisa que depois poderia vir a desenvolver.

A Emilinana Torrini escreveu uma canção chamada Big Jumps (de onde vem o nome deste projecto) e ao apresentá-la dizia que é preciso coragem para se ser feliz. Revês-te nisto ou para ti as escolhas são fáceis e naturais?

Eu era uma pessoa determinada e achava que sabia exactamente como ia ser a minha vida, agora sou determinada mas não sei nada sobre como vai ser a minha vida. Quando era adolescente achava que ia ser isto e aquilo, que a minha vida ia ser de determinada maneira. A mãe duma amiga minha cita muitas vezes a frase não sei bem de quem, que diz que a vida é aquilo que acontece enquanto estamos a fazer planos.

Acho que é dos Beatles, ou do John Lennon...

Quando tu começas a falhar na vida, e quando a vida te começa a falhar, percebes que de facto não vale a pena fazer planos. E eu comecei a ter essa percepção aos doze anos, quando o meu avô morreu. O meu avô era fundamental para mim e eu achava que ia ter a vida toda com ele. De repente, estou a mudar de escola, a entrar na adolescência, a ir para o liceu. Tumba: o meu avô morre. Pensei, "Isto não estava nos planos. Como é que agora vou viver sem ele?" Mas tens aquela fase da adolescência em que achas que sabes tudo... Depois, quando entrei na Faculdade de Direito, de novo: "Tumba! Não era nada disto". Faço aquilo até ao fim e finalmente começo a entrar num caminho que talvez seja o meu. Mas a verdade é que foi aí que deixei de fazer planos. E por isso não é propriamente construíres a tua felicidade; é mais seres fiel a ti próprio, que é uma coisa muito difícil. Porque é preciso que te conheças. E tu nunca consegues conhecer-te: num dia és uma coisa e noutro dia és outra. A verdade é que vivemos numa sociedade onde somos programados para o sucesso. Para casarmos, termos filhos, termos uma carreira... E de repente morremos. De repente, morres. Pronto, tudo bem, foi muito bom pensares a tua vida com a tua família e construíres qualquer coisa, mas pelo caminho vais-te esquecendo um bocadinho de ti. Estás tão programado para seres a "Inês-mãe", a "Inês-mulher", a Inês que supostamente deveria ter sido advogada, que supostamente deveria ser jornalista, estás sempre a cumprir uma missão. E um dia páras e pensas, "Espera lá, o meu filho já cresceu. E agora?". É muito arriscado, a vida é arriscada. O desafio é nunca abdicares de ti próprio e saberes sempre situar-te no mapa. Sendo que estás sempre a perder-te no caminho.

No seguimento do que dizes, suponho que não tens ideia de quem gostarias que fosse a Inês Fonseca Santos daqui a 20 anos?

Não faço ideia. Eu tento não fazer planos. E não me preocupo muito com a posteridade. Na apresentação d'"As Coisas", o meu primeiro livro de poesia, disse que às vezes encontras-te com pessoas que em cinco minutos partilham contigo um projecto qualquer ou algo que estão a fazer e a tua vida muda ali. O que aconteceu nessa altura foi curioso. Estávamos em minha casa com o João Paulo Cotrim e com a Filipa Leal, que são meus amigos há muitos anos, e a Filipa, que tinha lido um esboço do meu livro, perguntou ao João se já o tinha lido. E o João disse: "Não, envia-me." Eu enviei e, mais tarde, perguntei-lhe se tinha gostado. O João Paulo escreveu-me: "Não só gostei, como vou publicá-lo". "Estás maluco! Vais publicá-lo onde, como?". O João estava a criar uma editora, a Abysmo, e de repente o João tinha uma editora nova e eu tinha um livro novo e um editor. Provavelmente, se eu não estivesse mais próxima do João naquela altura e ele não estivesse a criar a editora e eu não tivesse escrito "As Coisas", o livro ainda hoje estaria na gaveta...

Achas que há aí um bocadinho de sorte?

...Não sei... não faço ideia se é o destino, se é sorte.

Às vezes é estar no sítio certo na altura certa.

E às vezes é estar no sítio errado na altura errada. Às vezes perde-se uma oportunidade por segundos. Mas eu sinto que há qualquer coisa a orientar isto tudo... E por isso é que continuo a ter esperança que isto pode mudar, tudo isto pode melhorar. Que há qualquer coisa que, apesar de te trazer dificuldades, de repente limpa o que é nocivo, prepara-te, e encontras aí um novo caminho.

Tens fé?

Tenho. Já a perdi várias vezes mas tenho conseguido recuperá-la.

Sentes alguma responsabilidade em ser poeta em Portugal?

Não sinto responsabilidade. É preciso ter consciência da tradição e é preciso conhecer o que se escreveu e o que se escreve. Tens muito para conhecer... É necessário conhecer do que é que é feita a nossa literatura, a nossa linguagem, a nossa língua, os nossos recursos... Acho isso fundamental, e foi por isso que fiz o mestrado em Literatura Portuguesa. Eu andava a escrever, naquelas minhas insónias, e interessava-me encontrar o fio à meada e fazer esse percurso, que te obriga a ser mais objectivo, a escrever ensaios, a ter a cabeça mais organizada, a produzir um discurso sobre, ou seja, para se ser escritor é preciso ser acima de tudo um bom leitor. Isso é elementar. Não é tanto responsabilidade. É ter noção do outro, dos outros... Acaba por ser estúpido negligenciares o que já foi feito, a tua herança.

A vida é demasiado incerta e precária para um poeta?

É para toda a gente, neste momento. Os poetas têm essa fama, de andarem escondidos numa cave a escrever poemas todos vestidos de preto e sem tomar banho. Mas as pessoas da cultura estão um bocadinho em risco precisamente porque se está a transformar tudo numa indústria gigantesca de entretenimento. Há uma confusão enorme entre o passar tempo e o formares-te.

Mas há 10 anos não estávamos em crise e se calhar já se sentia isso na cultura?

Não sei bem, porque comecei a trabalhar nesta área precisamente há 10 anos. Neste momento, caem redacções inteiras, caem páginas, secções inteiras dedicadas à cultura nos jornais. Onde tinhas uma página que revelava um novo escritor, um artista visual, um encenador, coreógrafo, bailarino, tens agora uma página dedicada a um restaurante. Não tenho nada contra isso, mas podia haver espaço para tudo.

Tem havido um desinvestimento na cultura, claro?...

Claro, gravíssimo. As pessoas meteram na cabeça que a cultura é uma coisa aborrecida, chata. Na televisão há um investimento brutal na chamada ficção nacional e nos concursos. Aquilo não traz nada, não te ajuda a construíres-te a ti próprio, não te ajuda a relacionares-te com o outro...

Mas concordas que isso não é uma realidade só portuguesa?

Sim, é geral, mas vês noutros sítios que há sempre uma espécie de oásis, e o que acontece em Portugal é que as minorias não têm espaço. Isto não é uma democracia porque as minorias deixam de ter espaço, deixam de ter hipótese... Eu não ligo a televisão porque nada me interessa na televisão e antigamente havia. Julgo que tenho direito a poder ligar a televisão, até porque pago para isso. O serviço público está em vias de extinção. Também estou a deixar de comprar jornais, porque os artigos que me interessam já não ocupam uma página, ocupam metade de uma página. Mais vale ler online.

Mas porque é que isso acontece?

Porque se vive nesta lógica perversa de que as pessoas querem é passar o tempo, e estão cansadas porque a vida é muito acelerada... Querem réplicas. Da vida medíocre que estão a ter em vez de quererem desafios para conhecerem mais. E esta falta de investimento no desafio, esta falta de vontade...

De se contrariarem a elas próprias.

Sim, a hipótese de melhorares. Aquilo de que falávamos há bocado. O conheceres-te um bocadinho mais. E viveres outras vidas. Porque ler, por exemplo, também tem a ver com isso. Ligas hoje a televisão e tens ali uma vida sem espessura, sem opacidade, absolutamente plana. É tão evidente e tão básica que não tem interesse nenhum. Se leres um bom livro, podes estar do outro lado do mundo, com pessoas que te desafiam porque estão a dizer coisas que te confrontam com situações diferentes...

Também. Por exemplo, o filme do David Fincher ("Em Parte Incerta") tem tantas camadas, tantas citações, tantos links para outros filmes, para livros, para outras obras, que podes ficar uma semana, um mês, a falar só sobre ele. Hoje em dia não há espaço para as pessoas falarem de nada. É tudo uma rapidez... Consumir isto, consumir aquilo, o que interessa é ter e não ser. É uma lógica absolutamente perversa porque estás aqui para existir, para partilhar. E agora não se partilha nada. Tu consomes um filme, a seguir estás a consumir outro, vais comendo umas pipocas ao mesmo tempo, estás ligado ao telemóvel, estás a partilhar não sei o quê, entretanto o filme já passou e tu não viste nada.

Uma das coisas que acontece frequentemente nas mais diversas áreas profissionais é que as pessoas acabam por aceitar trabalhos que não reflectem bem aquilo que são. Fazem-no por necessidade, por dinheiro... Tens tido a sorte de te reveres em todos os teus trabalhos ou houve alturas da tua carreira que tiveste que ceder?

Já tive que ceder. Mas muito pouco. Nesse aspecto sou uma sortuda porque quase todos os programas que eu fiz eram extraordinários e tive sempre editores que me respeitavam e me davam liberdade.

Qual foi o teu trabalho mais completo?

O Câmara Clara. O programa semanal, apresentado e editado pela Paula Moura Pinheiro, tinha uma estrutura que nos permitia escrever peças e trabalhar assuntos e temas que não estavam meramente ligados à actualidade. Trabalhavas grandes temas e, de repente, podia estar a escrever sobre a obra do Jorge Luis Borges ou estar a escrever sobre mapas e geografia ou a falar com uma pessoa que partilhava comigo coisas extraordinárias. Em cada semana, aprendia tanta, tanta coisa... Conheci pessoas tão estimulantes, capazes de partilhar. Foi uma sorte enorme pertencer àquela equipa.

Quanto tempo estiveste no Câmara Clara?

Quase sete anos. E também foi muito estimulante a parte do Diário Câmara Clara, que apresentava e editava e em que tinha liberdade de escolher os assuntos sobre os quais falava. Um disco que sai, um livro que sai, se quero falar de poesia ou de literatura infanto-juvenil... Naquele momento, na televisão portuguesa, só no Câmara Clara é que tinhas esse espaço, essa liberdade. Era muito desafiante e estimulante. Depois do programa acabar, as pessoas perguntavam-me se, ao fim de sete anos, não estava farta. Não. Todas as semanas do Câmara Clara eram um projecto diferente, havia temas diferentes, pessoas diferentes. Estava constantemente a aprender mais e a dar mais. Aquilo não se esgotava.

"A Palavra Perdida" é o teu último trabalho. Fala-nos um bocadinho sobre isso.

Escrevi "A Palavra Perdida" num momento muito intenso da minha vida. Tinha acabado de nascer o Manuel, o meu filho ( tanto que o narrador é um Manuel), e tinha morrido há poucos meses o Manuel António Pina que foi fundamental para mim. Para além de ter sido um grande amigo foi um poeta que estudei muito e que também tinha uma obsessão pelas palavras. Lembro-me perfeitamente de estar em casa sozinha com o Manel ainda muito pequenino e estar deslumbrada a olhar para ele e a pensar naqueles sons que os bebés fazem quando começam a tentar dizer qualquer coisa e a comunicar contigo. Comecei a pensar no assunto e surgiu-me esta história. Já tinha escrito outra história, que ainda não saiu, chamada "Torre P, 6º B". É o andar dos meus avós, a casa onde cresci. O livro é também para miúdos, mas ainda não está pronto. É o João Fazenda que está a ilustrá-lo. Mas n'A Palavra Perdida interessou-me esta conquista da linguagem, que é também perda. Há uma espécie de palavra inicial, que os poetas intuem, uma palavra que nasceu do silêncio... E há uma nostalgia dessa primeira palavra que de facto nunca tiveste, que te falta, e que nunca conseguiste pronunciar. E há essa necessidade de escrever para estares sempre a aproximar-te dela, sempre a aproximar-te... A conquista da linguagem pelas crianças passa por aí: quando experimentam, trocam as sílabas, dizem mal as palavras. Tu sentes isso, que há ali qualquer coisa onde queres chegar e estás sempre a perder. Há uma espécie de nostalgia no que escrevemos sobre esse momento inicial em que tu és absolutamente coincidente com o mundo, sabes? O Pina é que dizia que há uma espécie de ritmo do mundo...

Uma coisa muito primitiva

Exacto. Que tem a ver com o ritmo da natureza, o ritmo do coração, um som, que não é ainda uma palavra. Era isso que ouvia do Manuel (filho): um som que ainda não era uma palavra, ele não estava ainda a nomear nada. E isso é muito fascinante para quem escreve e para quem se serve das palavras.

Não é um livro para crianças, então?

Essa classificação foi inventada por razões práticas. O Manuel António Pina dizia: "Os livros não são para; são de quem gosta deles." Há pessoas de 70 anos que adoram o livro. E há os meus sobrinhos, entre os 5 e os 15 anos, ou o teu filho, de 4... Ficam todos fascinados com aquelas imagens e tentam descobrir...

A subjectividade, o absurdo, a abstracção são coisas que sempre estiveram presentes na literatura infantil. O teu livro é sobre um menino que procura uma palavra que perdeu e essa abstração está muito bem ilustrada pela Marta Madureira. O que achas que vai na cabeça de um pequenote quando vê aquelas imagens e se fala de uma palavra perdida, que não é um objecto físico. O que irá na cabeça deles?

Quem me dera saber... Porque já soube. Isso é uma daquelas coisas que nós perdemos. Esse espanto e a possibilidade do mundo ser tudo. c

Vês o teu filho no protagonista?

Consigo ver o meu Manuel, o teu Manuel, o Manuel António Pina, a mim própria quando era miúda. Aquela relação de espanto com o mundo que os miúdos têm é aquilo que o meu filho também tem. E é também a construção do mundo dele, porque às tantas ele começa a identificar as palavras que ele já conquistou. E são palavras de afectos: a palavra "amigo", "avô", a palavra "mãe", "pai", os nomes dos amigos e dos primos. São também palavras de espanto. Uma das primeiras palavras que o Manel disse foi luz, porque era uma coisa que o fascinava. A possibilidade de nomear as coisas é aquilo que nos vai fazendo crescer. Tu vais nomeando e vais construindo o teu mundo com aquilo que te vai fascinando. E com aquilo com que estabeleces uma relação de empatia.

Cresce aí uma inteligência a par com a linguagem.

A partir do momento em que nomeias aproprias-te do mundo e das das coisas. Portanto aí nasce uma inteligência e uma sensibilidade. Acho que a inteligência não se pode separar da sensibilidade. É muito difícil, pelo menos para mim, achar que uma pessoa é inteligente se essa pessoa é emocionalmente uma nulidade, quando não tem inteligência emocional. Não consigo achar alguém inteligente se for uma coisa meramente intelectual. A emoção tem que lá estar sempre.

O Paul Auster dá uma grande importância ao som das palavras. Para um poeta isso parece-me essencial. Ouves alguma coisa que não o som das próprias palavras?

Quando escrevo só ouço silêncio. Para mim é absolutamente essencial o silêncio. E a solidão, até.Depois abandono os textos durante um tempo. No computador, no papel, onde for. E quando regresso a eles já os leio em voz alta. Leio-os em silêncio primeiro e depois em voz alta. E aí tens um trabalho muito mais minucioso sobre cada palavra, percebes? Consegues sentir o peso e o som de cada palavra e tentas seguir um ritmo qualquer que as frases têm... E que às vezes não funciona bem dito por algumas pessoas e alguns poemas são estragados quando lidos em voz alta porque não se percebe exactamente o ritmo que o escritor quis imprimir. Mas às vezes tens boas surpresas porque descobres outro ritmo que te faz mais sentido do que aquele que tu tinhas inicialmente encontrado.

Um jornalista tem que ter uma escrita directa usando recursos linguísticos diferentes de um poeta. São coisas completamente opostas?

Sim, completamente diferentes. Aliás, o jornalismo é para ganhar a vida. O que eu escrevo nem sequer considero trabalho é uma espécie de exercício de sobrevivência e de tentativa de te veres ao espelho. Não de identificação mas de superação. Mas podes ganhar a vida com uma coisa que tu adoras como era o caso do meu trabalho em televisão: o "Sociedade das Belas Artes", "Câmara Clara", "Laboratório", o "Tradições".

Pegando nesse aspecto de te veres ao espelho, uma pessoas conhece-se melhor ao escrever poesia?

Depende...

Dava-me ideia que falavas duma espécie de auto-análise...

Auto-análise não, mas confronto com a linguagem e com o outro. A poesia é sempre um caminho para. Toda a escrita é um caminho para. Há uma história muito bonita: o mito de Narciso contado por Bachelard. Conta ele que às tantas Narciso, quando está debruçado sobre o lago para ver o seu próprio reflexo, ele está verdadeiramente no centro do Universo. Mas o que vê à sua volta é a floresta toda, é o céu todo, é o mundo, ao qual ele não escapa. Ou seja, tens ali a tua imagem integrada em qualquer coisa muito maior do que tu. E teres a percepção disso que te ultrapassa é muito aquilo que os poetas, os escritores, procuram. É, no fundo, situarem-se. A ideia de mapa de que há pouco falávamos...

Última pergunta. Tens um jantar com alguns artistas, realizadores e músicos para conversarem sobre a vida, cultura e arte. Quem é que estaria nessa mesa

Na minha mesa de jantar têm que estar sempre os amigos e a família. Mas acho que ia convocar só os mortos. Estaria o Manuel António Pina, o meu avô, o Nick Drake e o Jeff Buckley. Para mais um bocadinho de loucura estaria a Sylvia Plath e...o Jorge Luis Borges. O Pina, o meu avô e o Borges à mesma mesa seria um serão...

Espectacular.

Sim, Sobretudo porque depois se iriam meter com a Sylvia Plath.. E os outros a darem música...(risos)