Preferias que daqui a 30 anos viessem ter contigo para te pedir um autógrafo num dos livros do Dog Mendonça e Pizzaboy, na capa de um disco de jazz onde participas ou na capa da curta de zombies I’ll see you in my Dreams?
Isso é uma fantasia que as pessoas com algum tipo de ambição artística têm...Fazer um fast forward 30 anos à frente para saber o que andámos a fazer. O ideal seria que esse autógrafo fosse pedido, não numa das coisas que já fiz, mas numa das coisas que ainda vou fazer. Uma qualquer que ainda não sei o que será. Era interessante ver o resultado sem saber como foi o processo.
Tens trabalhado em meios diferentes. Sentes-te em casa em todos eles?
Não me sinto em casa em nenhum deles. Uma pessoa pensa sempre que com a experiência as coisas vão ficar mais fáceis mas, na verdade, as coisas vão ficando cada vez mais difíceis. Em todas as áreas em que estou envolvido acaba por haver um processo de concretização muito semelhante: as dificuldades são quase as mesmas. Aparecem as mesmas dúvidas e as mesmas complicações. Nunca fica mais fácil e não me sinto em casa porque o grau de dificuldade vai sempre aumentando como numa espécie jogo de computador.
Haveria mais algum "chapéu" que gostasses de experimentar?
Acho que já fui encontrando as coisas que gosto de fazer e tem muito a ver com estórias e com música - acabam por não ser coisas assim tão diferentes, porque a música também acaba por também contar algum tipo de história. O que eu realmente gosto de fazer é música, filmes e banda desenhada. Nos filmes gosto da parte do argumento, da rodagem, da pós-produção; gosto do processo inteiro. E a banda desenhada é um processo bastante semelhante ao cinema, na verdade.
Mas usarias outro meio para contar as tuas estórias? Stop-motion, por exemplo?
Penso sempre projecto a projecto, e às vezes, as ideias surgem e não têm a ver com música, cinema ou banda desenhada; podem ter a ver com animação ou jogos de computador, com teatro ou fotografia, sei lá… Essas questões podem aparecer e são imprevisíveis mas normalmente quando tenho uma ideia espontânea é num destes três terrenos: música, cinema e banda desenhada. Já dizia o Alejandro Jodorovksi: “a banda desenhada é o cinema dos pobres”.
No seguimento dessa ideia, faz sentido o Dog Mendonça e Pizzaboy ter sido pensado em primeiro lugar para cinema.
Sim, o Dog e o meu novo projecto, que é claramente pensado de forma mais cinematográfica.
Voltas a trabalhar com o ilustrador Juan Cavia. O que é que nos podes dizer sobre esse novo projecto?
Esse projecto surge duma ideia para um argumento de cinema que tive há quatro anos. Na altura, estava interessado em contar uma estória de género: Um género muito específico, que é o terror. Então, comecei a procurar um contexto onde conseguisse fazer uma estória minimamente credível dentro das regras do género e, por coincidência, estava a ver o documentário da Guerra do Ultramar realizado pelo Joaquim Furtado. Fiquei fascinado com aquele universo, com a situação política da época com a forma completamente absurda como foram enviados milhares de miúdos de vinte e poucos anos para o meio da selva. E pareceu-me o cenário ideal para a estória que eu queria contar. Fiquei obcecado com aquilo, e estive a reunir entrevistas e documentos nestes últimos anos. A parceria com o Juan Cavia, um artista de grande talento e uma pessoa extremamente generosa, é a única escolha que poderia ter para fazer um livro novo. Somos como irmãos, e sinto-me muito livre e protegido a trabalhar com este tipo de talento por perto.
Achas que é um salto de maturidade, essa passagem para um cenário de guerra?
Acho que sim porque implica uma dose acrescida de responsabilidade. Existe aquela regra de “escreve sobre coisas que sabes”. É uma das vias possíveis. Mas também acho muito interessante escrever sobre o que não se sabe porque se tem de aprender e, nesse aspecto, eu escrevi sobre uma coisa que não sei. Para o saber teria que ter sido enviado para a guerra. E nesse caso, provavelmente não estaria preocupado em fazer banda desenhada: aquilo foi realmente traumático. É um assunto muito sério para algumas pessoas e não podemos tratar o tema com leviandade.
Passaste pela faculdade de Comunicação Social antes de decidires ser pianista profissional, qual foi a razão de teres mudado de área?
Eu já sabia que queria ser pianista quando entrei em Comunicação Social mas não havia estudos formais possíveis a nível universitário. Hoje em dia há quatro cursos superiores de jazz e escolas do ensino profissional dedicadas especificamente à linguagem do jazz. Naqueles tempos era muito complicado optar por uma vida a tocar esse género de música sem parecer um inútil. Eu fiquei completamente fascinado por essa linguagem desde que entrei para o Hot Club aos 16 anos. A partir daí soube que era aquilo que queria fazer.
Já sabias alguma coisa de piano?
Sabia algumas coisas básicas de piano clássico e andava de um lado para o outro a tocar com bandas e músicos que tocavam acordes sem saber que acordes eram. Nesse aspecto tive muita sorte porque lidei desde muito jovem com linguagens completamente diferentes. Estudava na Academia de Amadores de Música e lidava com aquelas questões piores do ensino clássico, como a pressão de enfrentar um auditório sozinho ao piano. É uma pressão psicológica muito grande para quem nunca tocou ao vivo. Por outro lado, lidava com o convívio de estar a tocar numa banda e estar a construir os arranjos e as músicas em conjunto. E naquela altura ia para o Hot Club, para as jam sessions, experimentar a comunicação em tempo real ao improvisar e ao fazer parte duma secção rítmica. Toda esta junção de elementos fez com que eu não ficasse estanque num género de música e conseguisse apreciar a parte boa de cada uma delas. E, obviamente, a parte má. De todas estes géneros, creio quedediquei mais tempo ao jazz, mas o que eu gosto mesmo é de música nas suas diversas formas.
E então, passado algum tempo, desististe da faculdade…
Sim, quando uma pessoa sabe mais ou menos o que quer fazer, e está a fazer outra coisa, sente um desconforto muito grande. Tive que falar com os meus pais e dizer-lhes que não era aquilo que queria para mim e felizmente tive o apoio, que muitos pais não dão, mas que eu tive a sorte de ter.
Tornaste-te um nome importante do jazz português mas a dado momento deste um salto para outros meios artísticos.
Uma pessoa pessoa vai à procura das boas experiências que teve na infância. Tenho, de facto, uma ligação muito próxima com a música. Lembro-me que os meus primeiros brinquedos eram brinquedos musicais. Muitas vezes não se pensa nisso…
Mas essas coisas que vais buscar à infância, poderiam ser apenas os teus gostos pessoais na actualidade. Poderias gostar de cinema como consumidor, porque é que decidiste fazer um filme?
Porque gosto de perceber como é que as coisas são feitas, e ao mesmo tempo, há uma ansiedade que se gera e que só é combatida fazendo. Suponho que é por isso que existem tantos filmes, tantas coisas para desfrutar como consumidor - porque houve pessoas que tiveram esse impulso e o fizeram. E esse impulso é ao mesmo tempo uma benção e uma maldição. Essa vontade de fazer um filme tira-me algum tempo que eu poderia dedicar à música e assim, ser mais focado numa das áreas. Mas para mim não é possível pensar nesses termos porque mesmo como consumidor, sou disperso: gosto de ir ao cinema, gosto de ouvir música e cada vez mais gosto de ler banda desenhada. E tudo isto é combustível para criar coisas novas, ganha-se muita energia e inspiração ao ver coisas bonitas.
Essa dispersão de áreas teve alguma coisa a ver com uma necessidade financeira de diversificares o teu trabalho, devido ao contexto actual menos favorável?
Não teve de todo a ver com isso. O oposto. Quando eu digo que é uma maldição é porque essa paixão que tenho por diferentes áreas impede-me de me concentrar numa com todo o afinco e exclusividade. Normalmente sinto que isso é prejudicial porque nem as pessoas da música me vêem como um músico completamente disponível, nem as pessoas do cinema sabem que eu não estou completamente disponível para fazer filmes.
Ser artista pode ser complicado. Nunca pensaste: “Vou deixar isto e arranjar um trabalho convencional das nove às cinco”.
Nunca pensei nisso porque não seria capaz. Honestamente, não sei o que poderia fazer se não fosse aquilo que eu faço. Não é nada fácil mas eu não seria capaz de fazer mais nada. A única coisa que posso fazer é habituar-me à ideia que é um trajecto difícil mas que é o único. Nunca tenho dúvidas nesse sentido porque não tenho opções. É isto que eu sei fazer, ou pelo menos tento saber, e é isso que me faz levantar de manhã da cama. Se fizesse outra coisa seria um mau profissional, um desleixado.
Achas que um artista deve ser subsidiado?
É uma questão muito pertinente… Acho que deve ser subsidiado. Mas um artista tem a responsabilidade de conseguir sobreviver se não for subsidiado. Um subsídio nunca será uma coisa má porque é um estímulo que se dá à criação e facilita um processo que é duríssimo. O que se passa é que o subsídio pode ser mal empregue (e ganha aí uma conotação negativa), ou os artistas que não o recebem, arranjam na sua falta uma desculpa. Um subsídio será sempre uma coisa óptima. Mas é como aquela máxima do homem-aranha: ”Com grande poder vem grande responsabilidade” e cabe-nos a nós, fazer com que a palavra subsídio não seja sinónimo de dar esmolas a artistas para que fiquem a engonhar. Quanto mais subsídios houver e mais bem empregues forem, mais objectos artísticos haverá, com melhor qualidade, e com muito menos sofrimento envolvido. Há projectos menos comerciais e de grande interesse artístico que seriam muito mais difíceis de concretizar sem um subsídio. O que é que faz com que um subsídio seja bem ou mal atribuído? Ora... essa é uma questão muito abstracta e por isso é que há tanta confusão e tanta cabeçada quando se fala neste assunto.
Tens feito arranjos para artistas como o Legendary Tigerman, trabalhas com a Marta Hugon e fazes parte do projecto “Deixem o Pimba em Paz”. Tens algum grande objectivo a médio ou longo prazo nesta área, como um novo albúm em teu nome ou compor uma banda sonora para um filme?
Sim, isso é obviamente o que eu quero fazer. Mas para isso é preciso algum tempo e ter a capacidade de dizer que não a projectos muito interessantes para passar a investir numa coisa minha. E com isso surgem as dúvidas e as inseguranças: “E se aquilo que eu fizer não for bom?”. Parece que uma pessoa vai sempre adiando o que é realmente importante mas espero não adiar isso durante muito tempo. Acho que 2015 será o ano onde irei desbloquear uma série de coisas que têm exactamente a ver com isso.
Olhas para trás com orgulho no teu trabalho ou arrependes-te de algumas das escolhas que fizeste?
Há algo, que inicialmente pensei que fosse sorte (mas que depois percebi que não é só sorte!), e que é a capacidade de instintivamente me desligar de projectos que sei que não me vou orgulhar. Quase como fazer um diagnóstico da proposta. Aqueles que sei que não me orgulharia hoje em dia ou ficaram numa fase inicial ou tive a capacidade de dizer que não, algo que é muito difícil para um freelancer. Tenho-me protegido mais ou menos de forma a ter orgulho nas coisas que vou fazendo.
Recusarias ser júri do "Factor X" ou do "Ídolos"?
Meu caro amigo, eu já fui mentor do “The Voice” e não me identifico com esse universo. Mas também não me envergonho, porque senão tivesse sido essa incursão, não teria o segundo volume da minha banda desenhada. Por isso, não sou uma prostituta mas uma espécie de escort.
(risos) Não há vergonha nenhuma em trabalhar…
Claro que não, e nós temos que pensar como profissionais. Se uma pessoa pensa exclusivamente como artista está numa zona extremamente perigosa. O princípio do programa ("The Voice") não é apelativo para mim porque não estimula a originalidade mas sim um tipo de interpretação, que é um bocado aquela coisa da voz diva, que para mim não tem identidade. Mas foi um trabalho que me deu imenso gozo até porque de alguma forma tentava contrariar aquilo que era a norma do programa. E se calhar foi para isso que me chamaram, sei lá…
Revês-te mais no perfil de artista ou de empreendedor nas áreas artísticas?
Claramente artista; E não estou armado em intelectual. Para mim, a palavra empreendedor ganhou ultimamente uma conotação nojenta. Foi uma palavra que os cinzentões arranjaram para se referir às pessoas que estão preocupadas em fazer coisas inspiradas. A palavra empreendedorismo causa-me alguma repulsa e quando me chamam para falar ou para erguer a bandeira do empreendedorismo, fico logo arrepiado. É o sistema a tentar utilizar a nossa tentativa e o nosso esforço de fazer as coisas que gostamos sem ir à essência do problema, que tem exactamente a ver com o facilitar a vida aos artistas. Não sei… A palavra causa-me alguma repulsa e não sei bem porquê…
Confesso que de certa forma te vejo como empreendedor, mas percebo o que estás a dizer, até porque a palavra está na moda.
É exactamente isso. É uma moda falar de empreendedorismo. Se ser empreendedor é uma pessoa tentar fazer as coisas que gosta, que raios, então não somos todos?
O trailer do 3º e último volume da trilogia Dog Mendonça e Pizzaboy teve milhares de visualizações. As aranhas gigantes na ponte 25 de Abril foi o que de melhor já se fez em termos de efeitos especiais. Tens algum projecto na tua cabeça que não consigas desenvolver por falta de meios e dinheiro?
Uma das capacidades admiráveis do ser humano é a capacidade de adaptação, e nós vamos aprendendo a filtrar as nossas ideias de acordo com a capacidade que teremos para as desenvolver. O argumento do Dog Mendonça e Pizzaboy era um tributo a um género de filmes que era feito com muito dinheiro e eu honestamente quando o escrevi, pensei que iria conseguir fazer o filme. A realidade faz-nos perceber que não era possível fazer um filme daquilo. Passou assim, a Banda Desenhada, e a estória ficou contada. O argumento seguinte que fiz foi a pensar: “Vou tentar fazer qualquer coisa que consiga produzir como filme”. Então, conto uma estória na Guiné, durante a guerra do Ultramar. Efectivamente, agora não é possível produzi-la enquanto filme. Possivelmente o próximo argumento que fizer, será com a perspectiva realista de o filmar. Neste momento, não tenho nenhuma ideia que precise de milhões de euros para concretizar porque me vou adaptando ao que sei que consigo fazer.
Mas tu provaste com o trailer que conseguias fazer um filme de ficção com efeitos especiais realistas e com qualidade. Quem faz um trailer destes se calhar conseguiria uma longa-metragem…
Em boa verdade, uma coisa que é importante e faz parte desta nossa conversa, é referir que tenho tido a enorme vantagem de trabalhar com bons profissionais e colegas. Pessoas que te dizem o que está mal, quando algo está mal e te ajudam com as suas capacidades individuais a fazer algo melhor, de que todos se orgulhem e onde toda a equipa é devidamente aproveitada criativamente. Neste caso específico, eu tive um grupo de pessoas e de amigos que participaram como actores, técnicos de efeitos especiais e de fotografia e até figurantes - tu (André), por exemplo, foste bombeiro no trailer. Eram pessoas que acreditavam que o resultado podia ficar bom, e se não tivessem acreditado, não se tinham metido naquilo. As pessoas fizeram o seu próprio juízo do trabalho em questão e pensaram: “Será que isto vai ficar bom? É possível. Então vamos lá fazer isto." É o resultado daquela equipa, naquele dia. Seria impossível de outra forma.
Quem seriam os actores do Dog Mendonça?
Na verdade não faço ideia. Mas o Dog original foi desenhado sobre uma fotografia do Nicolau Breyner nos “Homens da Segurança”. Mas chegou a haver um casting para o Pizzaboy, quando nos candidatámos ao ICA e ganhámos o prémio de argumento. Mas ainda não consigo imaginar a cara de uma pessoa para o Pizzaboy.
Um dia vou ter financiamento para fazer a sequela do I’ll See You In My Dreams. Vendias-me os direitos?
Eu dou-te os direitos. Queres agora? Está aqui. São teus, podes fazer o que te apetecer.
E se eu fizesse uma desgraça de filme? Não sentias que tinhas que defender a tua dama?
Não, porque na verdade a minha dama também não era assim tão especial. Eu desafiaria, a quem pegasse nisso, a fazer algo pior do que o original. Eu tinha uma adoração muito maior pela série B do que tenho agora. Ainda gosto muito, mas começo a ficar com a visão adulta e careta da série B, que não tinha na altura. Estou velho.
Trouxeste cá lendas do jazz, ainda recentemente convidaste o Benny Golson para tocar, já conversaste com o John Landis, Guillermo del Toro. Se pudesses convidar alguém para uma noite de copos e conversa, quem seria?
Há uma pessoa que tem sido uma constante desde que eu sou uma micro-pessoa. É a resposta mais ingénua que posso dar, também a mas mais honesta destas todas. Quando eu era miúdo e me perguntavam o que é que eu queria ser, eu dizia simplesmente que queria ser o Steven Spielberg. Nem dizia o que é que queria ser, dizia apenas que queria ser aquele gajo. Isto é completamente absurdo mas de alguma forma mostra a admiração que eu tenho por aquele tempo e por aquela magia do cinema. Esta semana estava a rever o E.T. e aquilo faz-me sentir miúdo outra vez. Se eu pudesse estar com alguém a falar de um percurso de vida seria provavelmente o Spielberg. Marcou de tal forma todo o meu crescimento que seria certamente um serão incrível.
Aquela imagem dos “Fabulosos irmãos Baker”, com a Michelle Pfeiffer a cantar em cima do piano de vestido vermelho, já alguma vez concretizaste algo semelhante?
Por acaso já, mas o vestido estava-me um bocadinho apertado…(risos)
