Estudaste na Faculdade de Belas Artes e Documentário em Barcelona, fala-nos um pouco desse percurso.
Em Belas Artes podes escolher uma ou duas áreas para desenvolver. Eu escolhi o cinema documental, dentro da área de áudio-visual. Comecei a ver e a estudar vários autores e houve um em particular que me influenciou muito, chamado Ross McElwee que filmava tudo com uma handycam; a casa dele, as pessoas mais próximas. Eu fiz exactamente isso com a minha irmã. Fiz um documentário sobre ela e chamei-lhe “Mana”. Depois fui para França (Angers), em Erasmus e quis fazer um documentário mais abrangente, mais social, sobre os imigrantes portugueses. Em ambos os trabalhos tive uma excelente nota, mas cheguei à conclusão que dizia muito mais através dum documentário pessoal, do que através duma coisa social, onde eu queria abranger todos os assuntos que o mundo implicava. Daqui saíu uma boa lição, e daí a minha música ser muito intíma. Às vezes queres fazer música de intervenção ou algo mais universal porque achas que estás a ser egoísta, a falar só de ti, mas apercebes-te que as pessoas se identificam precisamente com isso. Toda a gente tem amores e desamores, vontade de ser feliz, tristezas, conhece a dor da morte. O caminho é mesmo falares o mais honestamente possível sobre ti.
Não deste o tempo por mal empregue, nesses anos de Faculdade?
Não, não foi de todo tempo mal empregue. Aliás, acho que os cursos são importantes como formação. O grande mal deste excesso de licenciados, foi convencerem as mães dos miúdos de quinze, dezasseis anos que os filhos tinham que tirar um curso superior no matter what. Tu tens que seguir aquilo que sabes fazer bem. Tenho a crença meio utópica que se todas as pessoas do mundo fizessem aquilo que realmente sabem fazer bem e gostam de fazer, então haveria o número exacto de educadoras, de padeiros…
Mas há sempre aquele trabalho chato que ninguém quer fazer, ou não?
Não, eu acho que há sempre alguém que gosta de fazer aquele trabalho.
Mesmo aquele trabalho considerado menor ou menos qualificado, como lavar casas de banho?
Eu não desgosto e já lavei muitas casas de banho. Recolher o lixo, por exemplo; Em Barcelona os trabalhadores que recolhem o lixo têm que fazer um exame de aptidão e são pessoas muito valorizadas, entendes? Tem muito a ver com a valorização do trabalho de cada um. E nesse sentido, a nossa sociedade está um bocado doente. Nós devíamos passar mais tempo com os nossos filhos. Já ouvi discursos de pais com filhos de dezoito anos que dizem ter perdido a infância toda dos filhos porque tinham de trabalhar até à meia-noite constantemente. Esse tempo já não volta. Estão a trabalhar para quê? Para não ter tempo de felicidade?
Mas esse equilíbrio é muito difícil e não é fácil encontrar um emprego onde se tenha tempo de ir buscar os filhos à escola. As empresas não estão preparadas para isso…
As empresas é que estão erradas, não és tu. Conheço imensas pessoas que estão infelizes no seu trabalho e que dizem que não vão poder ter outro filho porque já vão buscar muito tarde o único que têm. Mas vão busca-lo tão tarde porquê? Porque têm de trabalhar muito? E têm de trabalhar muito porquê? Para levá-lo à natação. Estás preocupado em dar tantos bens aos teus filhos, que te esqueces que o principal é um bem que não tens que comprar. Mas é uma discussão que nunca posso ganhar porque eu escolhi esta vida para mim. Criei as oportunidades para poder ter esta vida. Muitas vezes é difícil. Como é que eu consigo pagar a renda e as contas? Vou conseguindo… Na verdade, paga-se.
E poder ir buscar a filha à escola é um luxo.
Exacto, mas não devia ser, não é? Estamos com os valores todos trocados. Quando estive grávida, comentava com uma amiga o facto de parecer tão estranho termos uma vida dentro de nós, que se forma contigo e depois nasce… "Fui eu que gerei esta pessoa?!" Hoje em dia estamos muito mais habituados a mandar e-mails e, é para nós, muito mais natural falar por skype para o Brasil, do que ter filhos. Qualquer coisa não está bem. Estamos muito distantes do que há de natural em nós.
Quando é que chegaste à conclusão que irias conseguir ser artista e música?
Houve um momento de viragem quando voltei de Barcelona. Conhecia o João Paulo Feliciano, que era pai duma grande amiga minha. Ele ajudou-me muito nessa altura, pois eu tinha sempre trabalhos muito precários… Trabalhei a minha vida inteira em cafés ou bares, para poder estudar no Hot Club, ter aulas de voz ou fazer Erasmus. Tinha um objectivo na cabeça e pensava: “Como é que vou conseguir fazer isto? Ok, tenho que trabalhar seis meses.” Quando vim de Barcelona não sabia bem o que é que poderia vir a fazer. Inscrevi-me no IEFP, entreguei currículos e houve uma altura em que andava desesperada sem saber o que iria fazer. Inscrevi-me nas AECS para dar aulas a crianças e apaixonei-me um bocado por aquilo, mas recebia muito mal. Recebia 200 e tal euros por mês, passava recibos verdes… Ia à segurança social dizer-lhes os meus rendimentos e eles diziam-me:” realmente, com esses valores é considerada pobre. Vamos arranjar maneira de ficar só a contribuir 50 euros.” Nessa altura o João Paulo ajudou-me imenso. Como tinha o curso de Belas Artes, tornei-me assistente dele e ele criou as condições para eu poder estar tranquila durante alguns meses. Continuava a dar as aulas, mas agora estava mais confortável, mais segura e conseguia estar mais calma e continuar a compor, que era algo que ele incentivava. Ele tinha (e tem) muita fé em mim e queria que eu deitasse cá para fora as músicas que eu queria fazer, arranjar forma de as gravar. O João Paulo possibilitou tudo isto, e foi um momento de viragem onde ele me acompanhou bastante. E, de repente, comecei a ganhar bem.
É um risco ser artista hoje, aqui neste país e agora, neste momento e neste contexto?
Existe sempre algum risco nas decisões que tomas na vida. Prefiro correr o risco de ser artista, ser livre e dona do meu tempo do que correr o risco de ser infeliz no trabalho. Mas na verdade, desde aquele período que falámos há pouco até agora, o meu trabalho tem estado em ascensão, e nesse sentido a crise não me afectou. Mas sinto que a crise anda a afectar muito a criatividade. E sobretudo os jovens. Continua o equívoco. Esta coisa dos adolescentes perguntarem: “Porque é que me vou esforçar? Provavelmente vou para o desemprego…”. Isto está a acontecer. Entenderam a lição toda errada. Tal como a nossa geração a entendeu mal, ao pensar que teríamos todos que ter um curso superior para ser alguém. Tu tens que te investir naquilo em que acreditas. E isto vale para crises e não-crises.
Temos hoje uma nova geração de fadistas, temos bandas como os Paus, JP Simoes, B Fachada, Legendary Tigerman. Achas que estamos num bom momento em termos de música portuguesa?
Acho que a essa fase boa aconteceu em 2008, 2009. Em 2009 senti efectivamente um boom acontecer na música portuguesa. Agora há restícios disso. Não é que esteja a haver uma regressão, estamos é, neste momento, a colher os frutos desse período. Agora apareceu a Ana Cláudia, que eu gosto muito, a Capicua já vinha há mais tempo… Parece-me que cada pessoa tem mais foco. Já não tens só uma boa fadista, tens várias: A Mariza, a Ana Moura, a Gisela João, a Aldina Duarte, a Carminho. Artistas com sucesso e com novos fados, não é um fado só de xaile e a cantar acapella. Tens bateria no palco. Mas daquele período para agora, houve vários passos: O “Desfado” da Ana Moura, para mim, foi uma coisa importante, porque é um registo em disco da fusão das várias linguagens. Outra coisa que surgiu na altura, de forma muito mais assumida, foi o facto dos músicos se misturarem muito mais. Cantam músicas nos discos de outros, convidam outros para se juntarem a eles em palco. Até já me chamaram a atenção disso. “Vocês andam sempre juntos, também é demais!”. Mas assim é que é giro! Já cantei com o Jorge Cruz, Sami (Samuel Úria), Fachada, Tiago Bettencourt, sei lá… Gosto de me misturar
Os projectos são mais colaborativos.
Sim, e isso faz crescer. Essas colaborações fazem com que os artistas se influenciem mutuamente e, se reparares, sempre foi assim nos bons momentos da arte.
Achas que conseguirias conciliar a tua vida de música com a de pintura?
Sim, eu sempre procurei liberdade para me exprimir… Por isso quis ser pintora, para ter essa liberdade. Ironicamente, na Faculdade era obrigada a justificar tudo o que fazia e fui pegar na música para me exprimir à vontade. Foi assim que nasceu a música para mim. Agora, a esta distância, vejo as coisas de outra forma. Eu pintava desde os 13 anos. Quando cheguei a Belas Artes, entrei no jogo, estudei tudo, tive uma boa média. Mas senti-me castrada e deixei de pintar. Eu devia ter pegado muito mais no meu destino da pintura. Passados todos estes anos, posso fazer isso à vontade; senti uma enorme liberdade e voltei a pintar. Agora tenho um estúdio novo à espera que eu me lá sente a fazer as minhas experiências.
Há dias disseste numa entrevista, que eras pouco preconceituosa com a tua criatividade. Não tens medo de ser criticada por isso?
Tenho, mas vou ser sempre criticada. Sim, tenho medo e neste disco que aí vem, chamado "Quarto Crescente", saltei um bocadinho para fora de pé. E assaltam-me aquelas questões: “o que é vão pensar disto?”. Sempre tive medo de fazer uma música que seja completamente previsível e quadradinha. Nunca gostei de música quadradinha… Muitas das minhas músicas começam com um verso, e eu gosto tanto daquele verso, que a levo assim até ao fim. Fiz uma música para a questão do Vale do Tua e telefonei à Luísa Sobral para fazer o refrão. Não estou habituada a fazer refrões, não tenho essa lógica, e a Luísa é óptima a fazer refrões e por isso escrevemos essa canção a meias. A verdade é que fiz este exercício com algumas das novas músicas ao perguntar-me: “Onde está a parte luminosa disto?” - o refrão. Fui à procura dessa parte da música, e cresci nesse sentido.
Parte da razão de estarmos aqui a ter esta conversa, tem a ver com o facto de me ter chamado a atenção a forma como estruturas as tuas canções e dás espaço à tua música. Dás tempo aos instrumentos e deixas a tua música respirar.
Pois, mas não se consegue agradar a todos. Eu levo tempo a falar, a pensar; levo tempo a cantar e a ouvir. As pessoas não estão habituadas a viver com tempo. A ouvir com tempo. É preciso uma disponibilidade muito grande, principalmente nos dias de hoje em que se tem vinte e-mails em atraso para mandar. A vida prática e real está a engolir a vida lírica e poética. Temos pouco espaço para a contemplação. Estamos um bocado doentes nesse sentido. Quanto mais eu respeitar esse silêncio nas minhas músicas, essa paz e esse sentido do ouvir, menos capacidade elas terão de ser radiofónicas.
Há, talvez, um esquilíbrio que se tem que manter...
Da mesma forma, o alinhamento das músicas é diferente, quando faço concertos acompanhada apenas do meu marido num ambiente como o castelo de Leiria (um concerto maravilhoso para nós e com grande sintonia com o público) ou quando damos um concerto na alameda de Espinho cheio de gente. Eu sei reconhecer quando as pessoas precisam de algo mais imediato, por isso tenho que lhes passar da melhor forma a minha música.
A forma como estruturas a tua música, é algo instintivo e natural ou há um esforço consciente da tua parte em fazeres as coisas da forma como o fazes?
Eu gosto de me desafiar a entender a estrutura da música. Já dei esse passo. Agora, alterar a forma de sentir a música não. Tenho tanto medo de fazer uma música completamente idiota. Mas será que consigo fazer uma música idiota? Com uma letra sem interesse? A letra para mim tem que ser trabalhada, muito intricada. Dou muito valor à letra e por isso acho que não corro esse risco…
Começas por escrever as letras?
CComeço pela melodia. Mas agora tenho outra maneira de compor. Ando a experimentar midis (sou péssima a tocar teclados), gravo as linhas de baixo, bateria, tudo mal tocado. Quando vou ouvir o que gravei, a melodia já me diz qualquer coisa e escrevo as palavras. Um bocado como o Miguel Angelo (o pintor/escultor) da canção
Se te dissesse que um jovem adolescente fez uma escolha importante ao ouvir a tua música, sentias o peso da responsabilidade?
Claro que não. Sentia-me feliz. Responsabilidade é algo que tenho em excesso. Tenho uma espécie de exercício de vida, que é livrar-me de responsabilidades. Mas fico feliz por ter esse impacto. Houve um rapaz que me escreveu de algures da Europa a dizer que tinha perdido a namorada, o trabalho, estava cheio de saudades da família e de Portugal e que aquilo que o salvava era ouvir de manhã a minha música. Aquilo abalou-me. Respondi-lhe à mensagem e ele ficou admiradíssimo, nem conseguia acreditar que eu lhe tinha respondido. Se calhar pensou que estava a fazer um desabafo para uma página do facebook sem ninguém, ou assim. A surpresa dele foi tal, que me respondeu motivadíssimo.
Uma das bandas que segui de perto nos anos 90 foram os Nine Inch Nails. Eles fizeram um álbum chamado “Downward Spiral” e de seguida uma espécie de álbum de versões/remixes chamado “Further Down the Spiral”. Com a situação actual de um deputado condenado a 10 anos de prisão e um ex-primeiro ministro a ser julgado, achas que fazia sentido um álbum da Márcia chamado “Ainda mais dentro do meu Casulo?”
Não… Isso é um mal que só vamos conseguir combater quando a consciência das pessoas se alterar e perceber que os políticos estão cá para nos servir e não ao contrário.
Mas o “Casulo” não é um sítio onde te resguardas de todo este ruído?
Sim, mas o Quarto Crescente também é… Mas é ruído a mais, não é? Numa das minhas músicas novas há uma parte assim: “Chegas tarde, ligas a televisão, que a vida não se atina sem jornais. Tormentos, maus momentos são pelo menos uns segundos tudo assuntos que não interessam mais”. Resume um pouco isso. Acho muito decepcionante o Sócrates ter sido preso, depois de ter sido Primeiro Ministro com maioria absoluta, ter ganho a confiança dos portugueses e depois de toda aquela confusão do Durão Barroso e Santana Lopes. Alguém dizia no outro dia: “Eles que não sejam presos, que devolvam só o dinheiro”. Já dava para baixar as contribuições dos portugueses e ajudar toda aquela gente com vidas precárias.
Não tens medo do palco?
Agora já não. Antigamente ficava ansiosa algum tempo antes dos concertos.
Ou de te esqueceres das letras?
Há um grande técnico de som chamado Nelson Carvalho que disse uma vez ao meu marido que o problema não é enganares-te, mas a forma como recuperas do erro. Aprendes a recuperar do erro cada vez mais depressa. Já aconteceu comigo, e ri-me ou passei à frente. Quanto mais demorares a passar à frente, mais risco há em comprometeres o resto do concerto. Se relativizares aquilo, as pessoas aceitam e eu tenho essa sorte com o público. A sorte de sentir que tenho o público muito comigo. Fui ganhando essa confiança. No São Jorge, na apresentação do “Casulo”, sentimos muito isso. Como as minhas músicas me aproximam das pessoas, sinto essa sintonia com o público e por isso saímos desse concerto com a sensação de ter estado a tocar em casa. Nunca gostei de aparato. A minha música, “Cabra Cega”, fala muito disso. Gosto da ideia de tirar as máscaras, tirar o pó de arroz. Não gosto de formalidades, das luzes ou de ser apresentada. Gosto de ver o público, não gosto de ver a massa preta. Não é defeito, é feitio. O “show off” não é para mim.
Se fosses convidada para organizar um festival de música, que músicos portugueses ou estrangeiros é que convidavas?
EEm primeiro lugar Led Zeppelin. Depois gostaria de ter num auditório a Sharon Van Etten. Mas punha muitos artistas portugueses: Capicua, Dead Combo, a Gisela João… Punha a Sequin. Adoro-a! Também punha alguma música brasileira: a Marisa Monte, a Adriana Calcanhoto, o Dadi Carvalho, o Caetano (Veloso). Conheces Rhye? Gosto deles. A Sade, claro. Podia estar no palco principal com os Led Zeppelin. Também queria lá os Tindersticks… Mas um músico que me impressiona muito é o Nick Cave. Adorava vê-lo. Ah!, o Bonnie ‘Prince’ Billy! Dá uns óptimos concertos. Esteve agora cá, no São Luiz.
E gostavas de partilhar o palco, ou conhecer algum artista em especial?
Talvez o Sting. Gostava de o conhecer. Sentar-me a conversar com ele. Gostava de o entender; tem coisas tão bonitas e outras com arranjos que não gosto nada. Também gostava de conhecer o Beck e a Joni Mitchell.
Alguma vez pensaste em escrever uma canção só para poderes fazer stage diving?
(risos) - Eu tenho uma, por acaso. Mas nunca a gravei…
