Há dois anos imaginavas-te estar onde estás agora?
Não, imaginava-me estar a trabalhar num atelier de design, provavelmente a fazer capas de livros, que era o que eu queria inicialmente.
Que curso é que tiraste?
Design, em Aveiro. Comecei a trabalhar como designer gráfica numa empresa e depois numa associação académica. Mas fui-me apercebendo que não era aquilo que me fazia feliz, estar tanto tempo à frente de um computador. Os meus objectos preferidos continuavam a ser os livros e eu não os estava a fazer. Sempre tive uma paixão pelos livros, não só ilustrados, mas livros em geral. O Livro é, desde sempre, o meu objecto preferido. Pensei que iria ser feliz a paginá-los e a fazer as capas, mas a dada altura descobri os álbuns ilustrados no meu curso de design. Quando era criança não havia em Portugal o chamado picturebook. Mas entretanto, surgiram diversas editoras como a Planeta Tangerina, a Kalandraka e a OQO. Comecei a ficar atenta a estas editoras e quando comprei o "Um Livro Para Todos Os Sias", pensei: "Eu seria feliz a fazer isto!". Antigamente os livros não tinham a presença da ilustração como têm agora, eram mais livros com ilustração e não tanto álbuns ilustrados. Durante a licenciatura fiz um curso de ilustração e descobri que muitos designers também faziam álbuns ilustrados como o Enzo Mari, o Paul Rand, o Saul Bass, o Bruno Munari.
São as tuas referências?
Sim, lembro-me de ter feito um projecto ligado à poupança de água, porque estava em design industrial e, fiz um livro que contava as várias facetas do projecto. O objecto final era um livro e por isso, acho que naquela altura já estava a tentar fazer aquilo que eu mais gostava.
Greve foi o teu livro ilustrado e o primeiro título na Orfeu Mini.
Sim, o primeiro título de um autor português. Já haviam editado muitos outros autores, como por exemplo o Oliver Jeffers.
Gosto muito do Oliver Jeffers, também é uma referência para ti?
Sim, também. Mais pela sua capacidade de conseguir pensar no objecto como um todo. Ser autor e ilustrador, pensar no livro-objecto.
Mas tu também pensas nesses detalhes, ou não?
Sim, penso. O Oliver Jeffers intitulou-se picture bookmaker e acho que é o que eu sou também.
Como é que surgiu este teu primeiro trabalho?
Depois de ter feito o projecto de mestrado, enviei o livro a quatro ou cinco editoras e a Orfeu Negro respondeu. Por acaso, é uma estória engraçada: a assistente editorial enviou para a editora, a editora enviou para o designer e para um outro ilustrador e eles não responderam. Uns meses depois, o designer encontra o meu site, vê o projecto do "Greve" e reencaminha para a minha editora: "Olha, vê lá se isto te interessa?". "Mas eu mandei-te isto há dois meses atrás?", respondeu ela (risos). Mas chegaram ao meu trabalho, isso é que interessa.
O teu trabalho foi elogiado em Bolonha, onde ganhaste o ano passado o prémio internacional de Ilustração. Passo a citar: "Um trabalho maduro, com uma identidade bem marcada, com um grande controlo na composição dos elementos e composto por linhas e cores primárias que transmitem eficazmente as emoções das personagens". Isto são coisas naturais para ti, instintivas, ou tudo isto é muito pensado e trabalhado?
É muito trabalho. Não que esteja a pensar tudo a toda a hora, mas mais no sentido em que é o resultado da evolução do meu trabalho. Sinto que o "Greve", em termos de composição não tem nada a ver com "O Meu Avô". Fui pensando e trabalhando no sentido de evoluir, e é isso que nos faz crescer como ilustradores, ganhar experiência em cor, proporção, composição, equilíbrio em perceber onde se começa a ler a imagem, como fazer um melhor encadeamento e uma melhor montagem do livro. Tudo isso vem com o tempo e com a experiência. Nesse sentido, é o resultado de muito trabalho. N'"O meu Avô" em especial, tive mais cuidado porque tive que fazer composições de páginas simples, onde tinha que fazer a comparação entre duas personagens, e queria que essa comparação fosse simultaneamente uma antítese e uma coincidência de formas e perspectivas. Foi um trabalho de composição mais pensado e mais deliberado.
Nessa altura, pensas já no tipo de papel em que será impresso?
Sim, também. "O Meu Avô" foi pensado para ser impresso em cores directas. O verde e o vermelho são as principais, mas na realidade são quatro cores. Eu já preparei o trabalho todo a pensar na separação de cores. Não fiz um desenho a verde e vermelho, fiz os desenhos a preto e o resultado final sai com aquelas cores.
Equilibrar a integridade do nosso trabalho e ideias com segurança financeira não é fácil, sentes essa dificuldade?
Já senti mais. Agora, felizmente, não consigo aceitar todos os trabalhos que gostaria de fazer. Mas houve alturas em que recusei trabalho, mesmo prejudicando a minha estabilidade financeira. Sempre tive esse cuidado, o de não publicar em editoras cuja linha editorial eu não me identifique. Neste momento, gostava de poder fazer mais coisas, mas não tenho tempo...
A literatura ilustrada e a literatura infantil estão obviamente a passar uma fase de excelência. Mas atravessamos tempos voláteis, o que hoje está na moda, amanhã já não está. Preocupa-te o facto desta fase tão boa poder ser algo passageiro?
Claro que sim. Mas talvez estejamos a olhar muito para o nosso país. A França e Itália têm uma tradição de livros ilustrados com muitos mais anos e continuam a ter essa tradição, nunca a perderam. É algo que vem desde o século XVIII, quando se começou a olhar para a infância com outros olhos, e se começou a valorizar a própria infância e a aprendizagem. Surgiu aí, a literatura ilustrada. E o caminho não pode ser nunca, o de voltar para trás.
Em relação a França, não posso deixar de me lembrar do Astérix e dos álbuns Franco-Belgas da nossa infância, como o TinTin. Mas são outro tipo de livros. Este género onde tu te inseres, também existiam em França há ou 20, 30 anos?
Sim, eles têm a feira de Montreuil em Novembro, que é uma espécie de mini-feira de Bolonha em que as Escolas levam os seus alunos lá. São quase exclusivamente editoras francesas e a quantidade de miúdos que vão à feira, a importância que dão aquilo, é enorme. O evento é anunciado nos Champs-Élysées. Nas livrarias vês uma quantidade enorme de livros ilustrados e revistas fabulosas e lindíssimas para crianças, coisa que não existe cá. Acho que essa tradição se pode criar aqui também.
Pensei que estes livros ilustrados, cuidadosamente elaborados, cheios de design, fossem algo recente.
Não será assim tão recente. Aqui chegou um bocadinho depois. Falámos de França, mas há outros países: Israel, a Coreia, os Polacos.
Consomes toda essa literatura ilustrada, de todos esses países?
Sim, claro.
Deves ter umas estantes com livros bem apetrechadas!
Várias.(risos)
O teu livro, “O Meu Avô”, faz o confronto de duas formas de viver a vida, através das personagens do Avô (com tempo disponível) e o Dr. Sebastião (muito ocupado). No entanto, o Avô já foi muito parecido com o Dr. Sebastião, assim o diz o neto, narrador da estória. Este pormenor é muito interessante, na minha opinião, porque fico com a ideia que não é uma questão de opção, mas que temos sempre que ser o Dr Sebastião antes de podermos ser o Avô. Estamos condenados a não conseguir usufruir do tempo como gostaríamos?
Neste momento, sinto-me um Dr. Sebastião. EU SOU o Dr. Sebastião. Mas não quis fazer juízos de valor, quero apenas falar das formas diferentes de viver o tempo. No final, acaba até por haver uma contradição; o neto que refere ao longo do livro que o Avô tem tempo e que o Dr. Sebastião não, acaba por dizer que o tempo passa a correr quando está com o Avô. Eu, neste momento, não tenho forma de escapar. Tenho que ser o Dr. Sebastião até ter mais tempo... Mas há pequeninas coisas que podemos fazer para ser um pouco menos essa personagem.
Suponho que tenhas sempre que parar para ler. Espreitar as novidades, as tendências...
Precisamente. Ler e ver filmes é importante. A cultura é tão importante para sermos felizes e termos uma mente sã, como para gerar a própria cultura. Porque não se inventa nada, acaba tudo por ser uma reinvenção.
Pensas explorar um pouco mais as palavras e a linguagem escrita nos teus próximos livros?
Já sinto que o estou a fazer. Escrevi dois livros com mais texto e um guião para uma curta-metragem e nesse sentido, sinto que estou a aprofundar esse aspecto. Mas devo confessar que quanto mais escrevo, mais difícil se torna escrever. Já estou com muito mais consciência que escrever frases simples é extremamente difícil. E isso devo-o à editora Carla Oliveira, que me ajuda a rever e a editar o texto. Num livro infantil, onde há poucas frases, tens que fazer uma ginástica grande para não repetires as palavras, ou teres o cuidado de não tornares o texto banal e repetitivo.
Parece-me claro que, para além das excelentes lustrações, existe aqui muito boas ideias a sustentar as tuas estórias. Achas que tens esse talento de criar ideias e de contar estórias?
O principal trabalho do ilustrador é ter ideias. Mais do que a técnica, o principal será sempre a ideia que queres comunicar. Seja para uma notícia de um jornal, onde tens que criar uma metáfora visual qualquer, que te comunique aquela notícia, seja para uma estória. Obviamente a ilustração não pode ser medíocre, se a estória for boa.
A minha opinião sincera é que o "Greve" tem um ponto de partida francamente bom. Está ali uma grande ideia. Esse será também, um factor para o teu sucesso, concordas?
Como eu não tinha nenhuma ideia de estória, propriamente dita, fiz um pouco como os oulipianos faziam: pegavam na linguagem para criar conteúdo. Exploravam a parte formal da linguagem para criarem o próprio conteúdo das estórias. E foi isso que eu fiz. Peguei na parte formal da linguagem, mais concretamente no ponto, que é polissémico. Na verdade, trata-se de uma meta-estória e uma meta-linguagem, porque fala sobre si mesma. Depois de ter feito dois livros neste estilo, senti que devia experimentar fazer outras coisas. E já me apetecia fazer outras coisas!
O que podemos esperar, agora em 2015?
Em resultado do prémio de Bolonha tive que fazer um livro para as edições SM, pois o prémio de Bolonha é dado pela própria feira e pela Fundação SM. Na feira deste ano, vou lançar esse livro e ter uma exposição individual com os originais. Será novamente um livro ilustrado, com texto em Espanhol, pode ser que mais tarde venha para Portugal, mas não para já. Em breve, vou lançar um livro da APCC (Associação para a Promoção Cultura da Criança), que tem uma colecção de livros quadrados muito boa, só com bons autores e ilustradores. Chama-se "O Chapeleiro e o Vento" e foi escrito por mim. Foi um convite. Estou ainda a fazer um livro para a Kalandraka, que sairá no início deste ano. O texto é de um autor espanhol, o Javier Sobrino. Ele enviou-me o texto, fiz as ilustrações, fizémos uma maquete e levámos para Bolonha. Depois conseguimos que uma editora se interessasse pelo livro. Vou ainda ter um livro na Orfeu Negro, para crianças mais pequenas, e outro na Bruáa com texto do Davide Cali. Isto no primeiro semestre.
No segundo semestre tiras férias... (risos)
Acho que sim...(risos)
A tua forma de expressão têm sido os livros e a impressão em papel. Imaginas-te a publicar em digital? Uma aplicação para tablets, por exemplo?
Sim, imagino. Gostava especialmente se fosse para uma editora como a Timbuktu, que é uma revista digital, muito gira, para crianças. Quando faço ilustrações editoriais, faço quase sempre ilustrações digitais, sem a preocupação da escala. A imagem pode ter de aparecer pequenina, no jornal online, ou grande, no jornal impresso. Quando se pensa no meio digital, tem de se pensar numa imagem suficientemente forte que funcione em diferentes tamanhos. Claro que, se a aplicação tiver botões, ou menus, terá de ser pensada de outra maneira, mas o processo não é muito diferente.
Já vais acumulando uma série de prémios e menções. Sentes pressão em relação aos trabalhos futuros?
Sim, sinto. Especialmente o livro de Bolonha. Sinto uma pressão enorme! Vou ter uma exposição individual em Bolonha...!
Condiciona-te?
Ah, sim. Muito. A parte inicial do desenvolvimento dum livro, em que estou a descobrir qual é a linguagem gráfica que vou utilizar, quais são as cores, qual é a técnica, como é que organizo a composição, se é mais dinâmica, com mais ou menos perspectiva; no fundo, o ADN do livro, é a parte mais difícil do processo. Pelo menos para mim. Mas já falei com outros ilustradores e percebi que para eles também é. Exige muito, muito trabalho. É a parte mais criativa mas também a mais frustrante, porque muito material acaba no lixo. E sempre que começo um livro, digo: "Não sei desenhar, eu não consigo fazer isto, não sei como transmitir este texto". Com o livro que terei que apresentar em Bolonha, foi este sentimento levado ao extremo. Muita, muita pressão.
Sentes medo ao ver a tela em Branco?
Um pouco, mas a maioria das vezes já temos algumas ideias na cabeça. Por vezes recusam-nos uma ilustração, recusam-nos duas, recusam-nos três... "E agora o que é que eu faço?". Tenho o papel em branco à frente, já experimentei três composições diferentes, já escrevi três coisas diferentes... Às vezes acontece.
Temos talento na ilustração, na música, na literatura. Achas que poderemos vir a ter talento na política?
Sim, acho que sim!
Vais organizar um jantar com ilustradores, músicos e escritores. Quem é que gostarias que estivesse lá a partilhar um bom serão contigo?
Que não conheço? O Richard Zimmler, o Pedro da Silva Martins (pausa). A Natália Correia (pausa). As três Marias das "Novas Cartas Portuguesas": Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa. Só disse gente que escreve, não foi?
Não gostas de cinema?
Ah, sim… têm de estar vivos? O João César Monteiro! O Wes Anderson. O Michel Gondry.
Agora que passou o Natal, quando é que escreves uma estória de Natal para eu contar ao meu filho?
Não sei, talvez para o próximo Natal. Como te disse, não tenho ainda nada para o 2º semestre (riso)...
