Conta-me um bocadinho do teu percurso até chegarmos aos PAUS.
Sempre ouvi e gostei de música, sempre tive gosto em tocar umas coisinhas, mas aos 14, 15 anos comecei a ganhar aquele bichinho, não só como músico mas como técnico. Fiz uma banda com um primo meu, o BB, começámos a comprar material e a usar uma das garagens que o pai do BB tinha disponível como sala de ensaios onde também dávamos concertos. Concertos muito bons, anos 90, hardcore, linha de Sintra: X-acto, 31 e Sannyasin tocaram lá. Vendíamos comida, vendíamos merchandise, tudo. Depois comecei a interessar-me mais pela parte sonora da coisa e fui para Inglaterra estudar. Estive lá dois anos a tirar um curso de som. Vim com uma bagagem um bocadinho maior e a partir daí, o estúdio foi crescendo. O Black Sheep estúdios foi, até há relativamente pouco tempo, a minha base. As minhas primeiras produções lá começaram algures em 2005, ainda aquilo não estava tratado acusticamente como um estúdio profissional. Gravei umas demo-tapes até 2007, e nesse ano, o estúdio entrou em obras. Comprámos duas ou três garagens, o estúdio foi tratado acusticamente e tornou-se o que é hoje. Desde 2007 que não páro de produzir: Black Mamba, Dengaz, Mata Ratos, Richie Campbell, Linda Martini, Vicious Five, If Lucy Fell, Riding Pânico, muita coisa... Até ter saído do Black Sheep, não parei de gravar.
Mas consideras-te mais músico ou mais produtor de música?
Não consigo dizer. Acho que nem sou uma coisa nem outra (risos). Quando comecei estava muito focado na parte técnica, no sound engineering. A certa altura fui adicionando outras coisas e acabei por me tornar músico, a cantar e a tocar instrumentos: guitarra, baixo, bateria. Quando comecei a tocar, a bateria era o que me dava mais pica e onde sentia que era melhor. Mas depois fui deixando de tocar. Hoje em dia, quando me sento na bateria, faço sempre o mesmo ritmo. (risos)
Pois, mas tens um problema: é que trabalhas com dois bateristas que tocam muito! (Hélio Morais e Joaquim Albergaria)
Sim, vais aprendendo muito. Música teórica não sei, nunca aprendi e tinha muitos amigos que estudavam música mas sempre achei que ficavam condicionados de alguma maneira.
Sim, em vez de teres mais ferramentas e teres mais liberdade, por vezes pode funcionar ao contrário...
Exactamente. Agora seria uma boa altura para estudar música. Já tenho muitos anos e uma bagagem tão sólida e tão bem sedimentada que conseguiria pôr no sítio certo aquilo que aprendesse. Além disso, a comunicação com os artistas torna-se mais fácil.
Há 5 anos imaginavas-te na capa do Ípsilon (suplemento do Público)?
Sim, há 5 anos sim. Não com PAUS, mas tinha outras bandas que eu já sentia que podiam lá chegar. If Lucy Fell já tinha boa visibilidade nos media, os Riding Pânico também.
Mas algo aconteceu nos últimos anos: os PAUS tocaram nos E.U. e México, os Riding Pânico alargam o culto ao tocar no Lux o "Autobahn" dos Kraftwerk...
Foi muito bom, nunca tinha feito uma cover/versão na vida.
Achas que a dada altura ficaram com a imprensa do vosso lado?
Não sei...Sempre tivemos críticas boas desde que aparecemos, tem corrido bem nesse aspecto.
A vossa música está a chegar a outro tipo de pessoas?
É possível, sim. Não sei se vou responder bem à tua pergunta, mas a partir do momento em que vais para fora e tocas para um público que não tem qualquer ideia pré-concebida do teu trabalho, sentes realmente que estás a alargar o teu público. Quando PAUS começou, as pessoas já nos conheciam de outros projectos, e houve um conjunto de pessoas que achavam que estávamos a ser levados ao colo, quase como se fosse uma cunha. Quando tocamos no estrangeiro, as pessoas sabem lá quem é o Makoto ou o Hélio (Morais)... E a receptividade e a resposta do público é brutal. Sentes que aquilo bateu. É genuíno.

Foto de Vera Marmelo
Como é que foi o México.
O México foi óptimo, os concertos foram maravilhosos, as pessoas curtiram muito e ainda por cima estás a viajar com os teus "brothers"... Estivemos quatro dias na Cidade Do México. Trabalhámos com uma road-manager, a Sandy, que era alguém que realmente precisávamos no local, e que foi incrível. Fizemos trabalho de promoção que culminou com um concerto muito bom. Era Inverno cá, e nós no México com calor, comida óptima...
Não houve stresses com o material, assaltos, roubos?
Não houve qualquer problema. Em Monterrey foi um pouco diferente. Não nos deixavam sair do hotel. El Paso é agora a cidade mais violenta, mas Monterrey chegou a ser a pior. Uma contagem de assassinatos abismal. Eu perguntei a dada altura onde é que era o festival e disseram-me que era ali, a 500 metros. "Mas nem penses que vais a pé!", responderam-me. Mas realmente sentias. Saías daquele raio à volta do hotel e sentias que não podias estar à vontade. Mas o concerto foi muito bom e atravessar a fronteira para os EU também foi interessante. Revistaram tudo, pesquisaram a banda na net, passaram tudo a pente fino.
Os PAUS estão a explorar o som e a estrutura da música, mas começam a explorar alguns aspectos visuais interessantes e talvez até artísticos, como foi a colaboração com a artista Jemima Stehli.
É um acaso. Mas desde o princípio que começámos a trabalhar com duas artistas:a Mariana Dias Da Cunha e a Bárbara Fernandes, que fizeram dois ou três concertos connosco. Uma fazia a instalação e a outra fazia a parte mais visual.
Mas porquê essa opção? Podiam simplesmente tocar as vossas músicas.
Sim, mas sempre achámos que a música poderia albergar a arte nos vários aspectos. Chegámos à conclusão que logisticamente é muito complicado e abandonámos um pouco essa ideia. Eu já trabalhava com Jemima Stehli há vários anos com If Lucy Fell. A dada altura ela começou um projecto novo e achou que fazia sentido explorarmos essas ideias em conjunto. E nós achámos que seria interessante explorar aquele conceito também.

Foto de John Filipe
A vossa música, por ser bastante instrumental, acaba também por ser muito cinematográfica ou ser um pano de fundo onde podes construir algo por cima. Concordas?
É uma mais valia, sem dúvida. Nunca explorámos mais essa parte, pela dificuldade logística.
Ouço o início do "Pontimola" e lembra-me anos 80, com marimbas, algo tropical... "Primeira" tem uns pads mais ambientais e o "Cume" remete-me para Aphex Twin anos 90, mais industrial. Tudo isto com uma base de rock. É difícil de catalogar. Achas que também o vosso público é difícil de catalogar?
Vejo people muito diferente, realmente. Um leque diversificado de pessoas.
Tens ideia para onde querias que fosse o som dos PAUS?
Não.
Incomodava-te o facto se os PAUS começassem a explorar a estrutura de canção?
Não, de todo. E se for por aí, é por aí. O que me agrada muito com PAUS é o facto de não haver preconceitos em relação a nada. Nós vamos para estúdio, "micamos" o material todo, e as malhas saem ali, ou seja, a primeira vez que aquele beat de bateria foi tocado é o que está no disco. Todas as malhas de todos os discos foram assim. Uma média de um dia por música, um pouco mais neste último. Desde o princípio até ao final. O riff do "Deixa-me ser" foi feito na hora. Naquele dia cheguei um pouco mais cedo que eles e gravei o riff. Quando o Hélio chegou, mostrei-lhe, ele meteu o beat e ficou assim. Logo. Dá-me um grande gozo. Sou preguiçoso. Odeio ensaiar. Odeio compor em ensaios. Em Riding Pânico foi diferente. Mais de metade do disco foi composto em ensaios, porque nem todos têm esta facilidade, de trabalhar assim.
Mas os sons de sintetizadores, os loops, é tudo feito na hora?
Tudo. Fizeste o teu trabalho de casa, onde exploras o teu próprio instrumento e sabes que tens aquelas possibilidades e timbres que sabes que podes usar. Mas não sabes onde vão encaixar. Respondendo à tua pergunta da possibilidade do som evoluir para o formato de canção: Não estou preocupado porque não penso nisso. Se for, siga!
Ao longo dos últimos anos já pensaste em deixar a música e a produção.
Sim, já. Já produzi de tudo, até um cantor romântico. A dada altura comecei a sentir que estava a virar frangos. Aceitava tudo o que era trabalho. Quando estás a gravar, sabes que se puxares pela pessoa mais duas horas, ela é capaz de te dar algo mais. Mas eu já não puxava pelas pessoas da mesma maneira, nem tinha força para o fazer porque sabia que tinha skills suficientes para resolver na mistura, sem ter que me chatear. Não quero voltar a esse ponto. Agora que estou quase há um ano sem me sentar na cadeira de produtor, estou com um bichinho para voltar a produzir e frustradíssimo porque o meu estúdio ainda não está pronto. Mas não vou voltar ao mesmo. Dinheiro não é tudo.
Preocupas-te com aquilo que poderás estar a fazer daqui a 10 anos?
Preocupado com aquilo que poderei estar a fazer, não. Eu sei o que é que estarei a fazer daqui a 10 anos. Estou a montar um estúdio agora e vou estar uns largos anos a pagá-lo. Estarei a produzir, sentando-me na mesma cadeira durante esse período, ou fazendo com que este projecto cresça para uma coisa diferente, mas sempre concentrado e focado no mesmo espaço e dentro da mesma área de trabalho. Mas se algo correr mal, vou para uma cozinha. Adorava.
A sério? Mas cozinhas bem?
Gosto de cozinhar, é verdade. Adorava tirar um curso de chef, sei que é difícil, mas adoro. Cozinhar, lavar a louça...ponho um somzinho e abro um vinho... Um grande entretém. E gosto da skill de apresentar um prato a alguém; é algo imediato, não é uma coisa que vás mostrar daqui a uns anos, é logo ali. Tens que cortar de forma perfeita, misturar as coisas certas na quantidade certa. Se não fosse produtor, gostava de ser chef.
Faz sentido, visto que és minucioso como produtor, e gostas das coisas bem feitas, parece-me?
Sim, fico chateado quando sei que as coisas podiam ficar melhor. Às vezes as pessoas estão a adorar o resultado, mas eu sei que podiam ficar melhor e sei onde é que podiam ficar melhor.
E em relação ao novo Estúdio? Como é que se vai chamar?
Haus. Em Santa Polónia. São 3 salas de ensaio na parte de baixo, duas delas já destinadas aos Linda Martini e You Can't Win Charlie Brown. A outra sujeita a marcações. A parte de cima é um estúdio de gravação com duas reggies, uma delas linda, com vista para o rio. Temos muito material, sintetizadores, back-line, teclados. Vamos ter um espaço muito confortável e muito fixe para podermos trabalhar. E não me refiro a mim e ao Fábio (Jevelim), refiro-me a todos os que vão usufruir daquilo. Não está acabado, mas está a caminhar para uma coisa perfeita, para estares ali tranquilamente a trabalhar. Um espaço grande, com uma live room muito boa. São os PAUS que vão estar dentro daquilo. A agência do Hélio vai passar por ali, a estratégia com o Quim (Joaquim Albergaria) e a produção comigo e com o Fábio.
Já sabes qual é a primeira grande cena a produzir ali?
Não, porque supostamente era para estar pronto em Outubro. Já tive que desmarcar bandas e não quero fazer mais isso. Mas estou confiante.
Que é que andas a ouvir?
Gosto muito do último do Panda Bear. Teclados muito bons. O último disco do D'Angelo, também. Ele esteve 10 anos sem fazer um disco, toda a gente curiosa sobre o que vinha aí. Experimenta ouvir o disco com phones e tira metade do jack. Não ouves a lead vocal, ouves só o resto. Está tudo desafinado. Mas não no sentido de mal cantado. A harmonia está completamente errada. É muito bom. Os Equasions também têm cantigas muito boas e o último de Aphex Twin não impressiona, mas é bom.
Com que é que gostavas de partilhar o palco?
Talvez o Daniel San, que gravou o "Cume" de PAUS e com o Marco Pombinho, teclista português que toca com os Black Mamba. E gostava de tocar com os Dead Combo. Curtia muito. Pôr ali uma linha de baixo à maneira.

Foto de Pedro Cláudio
Ainda te sentes nervoso quando sobes ao palco?
Sim, mas depende dos sítios. Há uns anos atrás não sentia isso. Quando cantava, isso não acontecia, tinha muita confiança. Não na voz, mas na performance. If Lucy Fell era mais fácil nesse sentido, se a voz falhava, eu conseguia dar a volta. Agora sinto mais responsabilidade, é mais cerebral. Fiquei nervoso no último concerto no Lux (14 de Fevereiro). Não pelo concerto em si, mas porque não sabia se seria ou não um tiro no pé. Era a terceira vez que tocávamos em Lisboa no espaço de um mês e meio e esse pré-concerto causou-me algum pânico. Mas depois correu tudo bem, e quando entrei em palco não estava nada nervoso. Normalmente lido bem com isso. Sou um bocado egocêntrico nesse sentido, tenho confiança, siga para a frente.
Alguma vez te correu mal o stage-diving?
Nunca. Vai ver o blog da Vera Marmelo. Vê o stage diving de If Lucy Fell do "Milhões de Festa 2011". Foi o stage-diving da vida. Mas parti o braço uma vez. Mas foi porque caí do palco.
