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Tiago R. Santos

Nascido em Lisboa em 1976, Tiago R. Santos é argumentista e realizador de televisão e cinema. Guionista ao serviço do cinema de António Pedro Vasconcelos, escreveu séries como "Os Filhos do Rock" e "Conta-me como Foi", tendo realizado a premiada Curta "Vícios Para Uma Família Feliz".

#6
Entrevista realizada a 22 de Outubro de 2015

Conta-nos um pouco do teu percurso até teres escrito o teu primeiro guião para cinema.

Sempre gostei de cinema mas sempre fui demasiado preguiçoso para seguir essa paixão. Aos 13 anos passava a vida no videoclube, alugava tudo, via tudo, era uma coisa um bocado obsessiva. Tinha dois videoclubes, um na Portela e outro em Moscavide, onde ia, caso o filme que queria ver não estivesse disponível no primeiro.(Também ia a Moscavide para alugar filmes pornográficos, porque os meus pais só iam ao da Portela.)
Embora tendo sempre gostado de cinema, nunca soube muito bem o que poderia fazer com isso... Sempre fui um aluno mediano, nunca chumbei, mas também nunca gostei muito de estudar. Quando cheguei ao 12º ano tive que pensar o que queria fazer da vida. Na altura a minha mãe levou-me a uma entrevista no conservatório de cinema, onde me foi dito que era necessário escrever um guião, criar uma "Bíblia" para um estória, uma coisa absolutamente complexa... "Vou é passar férias com os meus amigos ao Algarve", pensei para mim, "beber copos e conhecer miúdas" (Não que eu tivesse grande sucesso com isso na altura, mas era o meu objectivo).

Então terá sido uma espécie de falsa partida, no mundo da escrita criativa...

Sim, acabei por seguir comunicação social, tendo começado a minha carreira como jornalista a trabalhar para a "Semana Informática", apesar de não saber nada de Informática. Foi um desafio interessante, mas passados 6 meses decidi que não queria escrever sobre aquilo. Entretanto recebi o convite da "Focus" para trabalhar na secção de Ciência e Tecnologia. A dada altura perceberam que eu era um cromo de cinema, e fui para a secção de cultura, onde comecei a escrever sobre música e filmes.

Mas fartei-me de ser jornalista. Estava farto de Lisboa e na altura tinha dois amigos, o Hugo Gonçalves e a Patrícia Paixão, que também estavam descontentes com a situação em que se encontravam. Num jantar surgiu a pergunta: "E se fôssemos viver para Nova Iorque?". Isto foi por alturas do 11 de Setembro. Mudei-me para lá um mês depois do ataque. Servi às meses e fazia a vida que os Nova Iorquinos fazem. Ainda tentei escrever alguns artigos como coorespondente, mas rapidamente essa ideia caiu por terra, e aí sim, comecei à procura de cursos de Screenwriting. Aliás, comecei por comprar o guião do "Pulp Fiction" na rua ( lá vendiam guiões a 1 dólar nas ruas) para ver como era a estrutura e comecei a escrever o meu próprio guião. Nos intervalos do trabalho, sentava-me nos cafés a escrever e consegui acabá-lo. Chamava-se "God's Complex". Ficou uma merda, mas gostei da sensação de o escrever. Percebi que conseguia fazer aquilo. Mal, mas conseguia. Agora era uma questão de fazer aquilo melhor.

E levar a escrita de um guião até ao fim, é sempre uma tarefa exigente.

Claro, já dei aulas na Restart e em vários outros sítios e toda a gente diz que vai escrever um guião, mas grande parte dos alunos chega ali a meio do 2º Acto e não sabe bem para onde ir. Mas eu, apesar de tudo, tinha conseguido ir até ao fim e por isso era uma questão de aprender a fazê-lo como deve ser: tirei um curso de escrita na Gothams Writers, fiz um certificado na NYU e trabalhei num 2º guião. Uma coisa chamada "Strange Everyday People", um bocadinho melhor que o primeiro. Acabei por voltar para Lisboa, porque embora NY seja fantástico, sentia que poderia ser fácil perder-me no quão fantástico a cidade é. Conheci muita gente, pessoas que estavam lá há 20 anos, que queriam ser actores... Mas ainda estavam a trabalhar num restaurante. Senti que poderia acontecer comigo. Apesar de tudo, em Lisboa não havia tanta concorrência (nem tanta produção, claro) e regressei com a ideia de ser argumentista.

País Irmão

Foi nesse altura que conheceste o António Pedro Vasconcelos.

Sim, Conheci o António Pedro Vasconcelos através dum amigo, que era o Miguel Menezes. Ele tinha tirado um curso de representação com o António Pedro. Decidimos apresentar-lhe uma ideia, trabalhámos na "Bíblia", na sinopse, na descrição de personagens, todas aquelas coisas que se fazem na escola e ele convidou-nos para almoçar no Bairro Alto, no "Casa Nostra" (que é bem bom!). Disse-nos que não estava interessado naquele projecto de todo. Mas entretanto eu tinha levado um 2º guião na mochila. "Já agora, se tiveres tempo e paciência para ler, diz-me o que achas deste". Surpreendentemente o António Pedro gostou muito do guião e convidou-me para trabalhar no “Call Girl”. Foi esse o meu primeiro trabalho como argumentista.

Então aquele primeiro Guião nunca foi concretizado.

Não. Acho que aquilo pode não ser mau, tem ali qualquer coisa...

Ele certamente terá visto o teu talento, mas na vida há sempre aqueles acasos, a sorte, o estar no sítio certo na altura certa. Achas que a sorte ou o acaso tiveram algum papel importante na tua vida?

Há sempre os "ses", claro. Se não fosse o facto do meu amigo ter tirado o curso de representação com o António Pedro, se não tivesse sido malandro e levado o 2º guião na mochila, nada disto teria resultado.

Mas já estavas muito focado. Era mesmo o que tu querias…

Sim, quando voltei estava determinado. Deu-me imenso gozo escrever estas coisas. Imenso! Mesmo que não estivessem boas. Ir para cafés imaginar cenas e diálogos… Percebi que gostava muito de escrever diálogo. Mas não sou um gajo obcecado. Fui mandando CV's para vários sítios, para as "Produções Fictícias", "Plural", e não tive resposta. E ainda bem, acho. Se me tivessem respondido da "Plural" estaria a escrever "A Última Mulher"... Ou se calhar não... Mas sem dúvida que o António Pedro Vasconcelos, ao ter apostado em mim, sem eu nunca ter escrito para cinema, nada disto teria acontecido.

Para chegares onde estás hoje, fizeste provavelmente, algumas concessões. Porque às vezes não tem a ver com talento e potencial; as pessoas desistem porque a vida prática assim o exige, as contas, e tudo isso...

Mas continuo a fazer concessões. Por alguma razão existem tão poucos argumentistas em Portugal... A única Indústria que nós temos de ficção no Audiovisual são as novelas. Trabalhas num horário das 9 às 5 e tens um ordenado fixo. Eu posso não o fazer, porque vivo uma vida de alegre irresponsabilidade. Não tenho grandes interesses materiais, não tenho interesse em ter uma casa ou mudar de carro. Foi a minha decisão e esta é a vida que eu quero viver. Vivo projecto a projecto e pode acontecer chegar a meio do próximo ano e não ter nada para fazer. E o que é que vou fazer? Não faço a mínima ideia. Mas eu gosto dessa incerteza. Faz-me ficar menos acomodado. Se não tiver nada para fazer, talvez escreva uma peça ou um livro…

Há uma sensação de liberdade aí.

Sim, eu não quero viver aquela vida convencional... Não quero acordar e ir para uma redacção ficar fechado num escritório a trabalhar todo o dia. Gosto de trabalhar em casa, gosto do meu tempo e ganhei um grande apreço por esse estilo de vida.

Mas escrever um livro ou um guião obriga a uma grande disciplina. Consegues obrigar-te a levantar e a escrever? A teres essa rotina?

Sim, absolutamente. Mas a escrita dum guião tem várias fases. Por exemplo, nos trabalhos com o António Pedro há uma primeira fase de conversa; vamos almoçar, tentamos encontrar uma estória, depois começamos a falar da estória e a questionar-nos sobre o que queremos que aconteça. "O que queremos dizer com isto?" A fazer um brainstorming e a criar um Universo. Até que chegamos a um ponto em que ele me diz "Vai para casa escrever o guião". Aí sim, tenho que me obrigar a recolher durante um tempo, isolar-me do mundo. Normalmente saio de Lisboa, para não ceder tão facilmente a tentações e estabeleço uma rotina como se estivesse no escritório: as manhãs são para ler e rescrever coisas do dia anterior, as tardes para escrever novas páginas e as noites para ficar angustiado a achares que estás a fazer um trabalho de merda e a tentar não entrar em pânico,

Sim, quem já tentou escrever alguma coisa, sabe o que é ler no dia seguinte o que foi escrito no dia anterior e ter vontade de mandar tudo para o lixo.

Às vezes digo isto, e as pessoas pensam que estou na brincadeira, mas eu escrevo para que as pessoas não percebam que eu escrevo mal. Preciso de me safar, sem que as pessoas percebam que sou mau a fazer o que faço. Eu acho que sou competente, atenção. Por exemplo no "Leão da Estrela" deram-me um prazo muito curto para escrever. Se não tivesse alguma confiança naquilo que faço, teria bloqueado ou entrado em pânico. Mas sei que tenho alguns instintos, experiência e prática suficiente para fazer o trabalho. Mas quero sempre fazer melhor, e como qualquer trabalho criativo, acho que as coisas que coloco na página não são tão boas como o que está na minha cabeça.

Perde-se algo no processo.

Claro, às vezes estou de volta duma ideia e penso: "Isto é genial". Mas depois metes na página e dizes: "Não tenho talento para pôr isto no papel...". É angustiante.

E já que falas nessa perda para a escrita, achas que também há uma perda do guião para o filme?

Na minha cabeça os filmes são perfeitos. Ou seja, tenho todas as condições de produção, os actores são incríveis, os decors fantásticos. Mas as pessoas que estão a pegar no guião, estão a confrontar-se com a realidade das coisas... Por isso é injusto pensar assim. Eu não penso nesses termos. Não são melhores, são diferentes.

E em Portugal, se calhar haverão algumas dificuldades acrescidas na tradução do guião para a produção, por falta de meios.

Claro que não posso escrever uma perseguição de carros, por isso escrevo sempre como se fosse para um filme independente Americano: baseado em personagens, nos diálogos, em conflitos.

Em relação ao futuro, preocupas-te com o que vais fazer daqui a 10 anos?

Não. Talvez me preocupe o que vou fazer para o ano. Tenho um guião e quero realizar. Não gostava que o projecto morresse. (*) Mas não faço ideia onde é que estarei daqui a 10 anos, nem quero saber. Sei que quero continuar a escrever, continuar a fazer o meu trabalho e a ter oportunidades de fazer o que faço.

Ontem foi o 21 de Outubro de 2015, diz-te alguma coisa?

Foi a data do Regresso ao Futuro 2, não foi? (NOTA: a data futurista para onde viaja o protagonista)

Exacto. Vem aí um James Bond e mais Guerra das Estrelas. Este cinema, com que a nossa geração cresceu, ainda te toca de alguma maneira?

Gosto imenso de James Bond. Da Guerra das Estrelas menos. Mas gosto do 007 do Daniel Craig com o Sam Mendes. Mas não sou um geek e não sou muito saudosista. Não vou a correr comprar bilhetes para a Guerra Das Estrelas, mas tenho alguma curiosidade, claro.

Eu tenho a tradição de ver os filmes do James Bond com o meu pai. Tradição que começou no último filme do Roger Moore.

A melhor recordação que tenho do James Bond, também envolve o meu pai e o meu irmão também. Fomos ver aquele regresso do Sean Connery...

O "Never Say Never Again".

Precisamente. Com a Kim Basinger...

O Robert Mckee, que escreveu o "Story", livro conhecido neste mundo da escrita para cinema, dá muita ênfase ao plot e à estória. Concordas com esta ideia?

Acho que há lugar para todo o tipo de filmes. Gosto de filmes narrativos e bem dialogados e, que acima de tudo, consigam criar uma relação emocional com o espectador. Isso é o mais importante para mim. E acho que só consegues fazer isso, contando estórias. Caso contrário crias uma coisa mais plástica, mas intelectual, que não é obrigatoriamente mau. Gosto muito de alguns filmes assim: "Slacker" do Richard Linklater, por exemplo. Cabe tudo no cinema. Não acho uma melhor que outra, acho sim, que o cinema é uma arte popular tão admirada e tão procurada, graças à narrativa e às estórias.

Parece que a tua escrita vai muito na direcção dum cinema mais narrativo. O clássico dos 3 actos.

A estrutura em 3 actos vem de Aristóteles, não só resulta, como é orgânica. Quando contas uma estória a um amigo teu, sem te dares conta estás a contar algo com principio, meio e fim.

O filme do Miguel Gomes, por exemplo, as "Mil e uma Noites". Joga muito com a estrutura e a com forma de se contar uma estória.

Sim, e essa forma de fazer cinema às vezes resulta, outras vezes nem tanto. O que te posso dizer é que acho que em Portugal precisamos de mais narrativas bem contadas, que não menosprezem a inteligência do público, que o façam com competência e o tratem com respeito. A minha opinião é que o cinema Português está dividido em 2 polos: o cinema de autor e o cinema popular. O primeiro não tenta necessariamente comunicar com o público. É mais introspectivo. Mais abstracto e desconstrutivo, digamos. O segundo pertence aos filmes mais populares, alguns que também não gosto.

Faz sentido ainda, nesta altura do campeonato, estarmos divididos entre cinema de autor e cinema popular?

Estamos assim divididos por questões políticas. No cinema cabem todos os géneros, todas as maneiras de contar estórias. Mas fazemos dez filmes por ano, a maioria tem que ser subsidiado pelo ICA, criando-se essa divisão por questões de dinheiro. Se houvesse dinheiro para toda a gente, ninguém dizia nada. E não há mal nenhum existir um filme que é para um nicho. Se for honesto, tem o seu lugar. Acho que há filmes desonestos nos dois lados. Nós, em Portugal, não temos este meio-termo que é fundamental e onde tenho tentado trabalhar: em comédias, em dramas… Quero contar uma estória e que as pessoas saiam da sala satisfeitas por terem estado entretidas durante hora e meia. E, se calhar, ainda ficar a pensar em alguma coisa.

Parece-me que tem havido mudanças na ficção para melhor, mas ainda fico com a percepção que se investe muito em estórias marginais: pobreza, delinquência, marginalidade. Não questiono que seja cinema bom e muito bem interpretado, mas como espectador gostaria de ver abordados temas mais leves, onde a classe média se revisse mais, não tanto situações limite.

Talvez exista a ideia do cinema Português apenas como cinema de autor, um cinema fechado. Essa marginalização que falas não é ingénua. Isso nasce, por vezes, da ideia que o público português quer é ver novelas, por isso “ninguém vem ver os meus filmes, e como tal preciso de ser subsidiado”. Eu não acredito nisto. Se o público vir uma coisa boa, vai reconhecê-la. É fundamental contar estórias onde as pessoas se reconheçam a elas e ao mundo. Que consigam retirar algo e tenham um contacto emocional com o filme. Viste o "Network", do Sidney Lumet? É um filme incrível dos anos 70, quase profético, um guião brilhante. "Adivinha o que vai acontecer à televisão vinte anos depois?". Foi escrito pelo Paddy Chayefsky. Li, uma vez, uma entrevista com ele, que diz tudo. Perguntaram-lhe se tinha sido o seu objectivo, passar aquela imagem sobre os "media". Ele respondeu que não, o objectivo era entreter as pessoas. Porque as pessoas, para ir ao cinema, têm que arranjar uma babysitter, sair com o carro até ao cinema e pagar o bilhete. A tua obrigação é recompensar as pessoas por isso e entretê-las durante 2 horas. Se saírem e trouxerem mais alguma coisa, tanto melhor. Mas isso é um bónus. E, nesse sentido, fazeres um filme que ninguém quer ver é o mesmo que seres um bêbado sozinho num bar. Há quem não se importe com isso, eu não gosto. Gosto de ir ver os meus filmes, ver a reacção das pessoas, ouvi-las rir e a comentar no fim.

Falaste em esforço para sair de casa e ir ao cinema, por isso é que se calhar a televisão está em boa forma. Há uma grande diferença entre escrever para cinema ou para televisão?

Em Portugal é difícil escrever para TV. Há pouco dinheiro, os prazos são bastante agressivos. Escrevi para séries como "Conta-me como foi", "Liberdade XXI", "Os filhos do Rock" e alguns do "Bem-Vindo a Beirais". Escrever para cinema é fazer uma maratona. Escrever para TV é correr uma maratona, mas a sprintar! É um milagre chegares ao fim e estares vivo. Para actores, para toda a gente...Mas nos EU, a TV é muito interessante, às vezes mais que o próprio cinema. E na TV os argumentistas são os show runners, eles é que mandam. A Televisão tornou-se o meio do autor, no sentido do argumentista, e o cinema o meio do produtor/realizador. Acho que as diferenças vêm muito daí e talvez por isso a TV se tenha tornado muito mais adulta e estruturada por essa razão.

Achas, mesmo assim, que o cinema ainda está vivo e de boa saúde?

Claro que sim, o cinema está sempre a reinventar-se. Há muitos filmes bons, coisas fantásticas e não consigo ver todos os filmes que quero ver. O Spielberg e o Lucas disseram que o cinema de sala seria o cinema do grande espectáculo. O cinema mais pequeno, no sentido das estórias mais adultas ou convencionais, de relações humanas e dramas, serão vistos mais em casa. Mas continuarão a ser feitos. Falei-te que na minha infância fartei-me de ver filmes. Para mim, é como se tivesse sempre 13 anos. A minha relação com os filmes é sempre emocional, eu quero gostar daquela estória, quero rir-me e estar ali distraído a passar um bom bocado.

Como grande fã de música, e como músico amador, tenho que te perguntar: quando escreves ou imaginas uma cena, "ouves" alguma música, alguma banda sonora a acompanhar?

Não, confesso que não. Pode acontecer ter umas canções na cabeça... Lembro-me que no "Call Girl" escrevi: "A Maria está em casa a ouvir Ryan Adams…" O Tino Navarro disse-me logo: "Tira, isso, não quero saber o que ela está a ouvir". Se for importante para a cena estar a tocar uma música em particular, coloco essa indicação, claro, mas eu estou essencialmente a visualizar a cena e focado no diálogo. E visualizo sempre muito bem a cena para a conseguir escrever, mas nunca faço referências a posições de camera. Esse não é o meu trabalho, tal como a música, também não é. Se o fizer, acho que estou até a ser intrusivo.

Se tivesses tempo e dinheiro, e visto que também és realizador, o que é que realizarias?

Se tivesse tempo e dinheiro fazia a minha longa-metragem. Era já.

Mas fazias cinema espectáculo e de sala, como falámos antes?

Acho que gostaria de realizar algo no seguimento do que já fiz no meu romance, e que já percebi que é o meu tom: estórias da nossa geração e de pessoas de classe média que por vezes estão um bocado perdidas, nesta confusão que se tornou o mundo. E gosto de alguma surrealidade no banal, e tornar o surreal banal também... Acho que realizaria uma comédia contemporânea, actual com tons surreais sobre o sentido da vida, basicamente é isso. Explorar um pouco mais a meta-ficção, as estórias dentro de estórias e arriscar mais nesse sentido. Ainda no meio-termo que falámos, que fosse entretenimento e fizesse rir, onde mostrasse um pouco mais a minha visão do mundo. Talvez uma visão um pouco cínica, mas tentando encontrar um sentido para este mundo estranhíssimo em que vivemos.

Filme favorito ou Guião Favorito?

Sei lá, não sendo a minha referência, estou a lembrar-me agora que o meu guião foi um bocado no sentido do que faz o Charlie Kauffman (“O Despertar da Mente”, “Queres ser John Malkovitch?”, “Inadaptado”) Ele estabelece as regras e cria mecanismos interessantes para contar estórias em que as premissas são um bocado "fora", e usa esta forma de fazer cinema para potenciar as emoções humanas.

(*)O projecto em questão é "Vícios para uma família feliz", a curta que entretanto foi realizada pelo Tiago R. Santos.